Gravidez e filhos

Autonomia do jovem não começa na faculdade, mas no jardim de infância

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Controlar os passos do filho adolescente atrasa a conquista da autonomia Imagem: Getty Images

Do UOL, em São Paulo

20/04/2016 07h20

O ingresso do jovem na faculdade corresponde ao início da vida adulta, certo? Nem sempre. Muitos universitários são tratados como crianças pelas próprias faculdades, que instituem reuniões de pais e desenvolvem sistemas para que os responsáveis financeiros controlem notas e faltas. O medo é de que estudantes com pouca responsabilidade desperdicem o investimento feito pelos pais em cursos universitários com mensalidades que ultrapassam os R$ 3.000.

Na avaliação de psicólogos e educadores ouvidos pelo UOL, o que parece à primeira vista uma atitude positiva dos pais --fiscalizar o comportamento estudantil dos filhos-- atrasa a conquista da autonomia.

“Ser autônomo é responder pelos próprios atos, é saber criar saídas para os impasses da vida”, declara a psicóloga Maria Vitória Maia, professora do programa de pós-graduação em educação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Superprotegidos, os jovens têm pouco espaço para o exercício da autonomia.

O medo parece ser o grande motor dos adultos que infantilizam os filhos –resultando, por sua vez, em jovens indivíduos amedrontados e inseguros. Segundo Maria Vitória, a questão envolve desde a violência real do ambiente urbano quanto a dificuldade de os pais permitirem que os filhos cresçam e ganhem o mundo.

“Protegemos quando temos medo de perder, quando nos sentimos desamparados. Muitas vezes, tememos o mundo e assim acreditamos que os jovens o temem também”, afirma a psicóloga Maria Vitória.

O fato de que há jovens entrando na faculdade cada vez mais cedo –muitas vezes antes dos 18– naturalmente aumenta as preocupações.

Os jovens que estão chegando à universidade mal saíram da adolescência. “O adolescente vive uma fase de transição, na qual não é nem adulto nem criança. Mas precisa ir se apropriando das coisas que tem condição de realizar, pois isso impacta diretamente na visão que tem de si mesmo, em sua autoestima e autoconfiança”, diz a psicóloga Ana Paula Magosso Cavaggioni, pesquisadora convidada do Departamento de Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Ter condições de gerir o próprio aproveitamento acadêmico e arcar com a consequência das más escolhas –como ficar batendo papo no barzinho em vez de assistir à aula– é o mínimo que se espera de um universitário.

Às vezes, porém, o perigo do barzinho ultrapassa as notas baixas no histórico escolar. Abuso de álcool e outras drogas são preocupações comuns e válidas. “Os pais devem interferir quando perceberem que o adolescente não está maduro para arcar com as consequências de suas escolhas, orientando-os sempre”, afirma a psicóloga Ana Paula.

Construção da autonomia deve começar cedo

O ideal é que o processo de construção da autonomia comece bem antes de o jovem entrar na universidade. Segundo os especialistas, é na infância que esse processo se inicia. “A imaturidade do jovem é resultado de um trabalho anterior que não foi feito”, afirma Quézia Bombonatto, integrante da Diretoria Executiva da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia).

Segundo a psicopedagoga, gradativamente, os pais devem ir apresentando à criança oportunidades de realizar escolhas e até de cometer erros. Dizer “não” quando necessário também é fundamental.

“Com o tempo, a criança vai aprendendo a lidar com os ‘nãos’. Não se pode dar tudo para o filho, ou ele jamais aprenderá a superar as frustrações. E se eu faço tudo pelo meu filho, transmito a ele uma mensagem de que ele não é capaz de fazer as coisas sozinho”, fala Quézia.

O processo de construção da autonomia não ocorre de uma hora para outra, mas é essencial para o ingresso na vida adulta.  “Não ficamos olhando as orelhas lavadas de nossos filhos a vida inteira nem se escovaram os dentes, acreditamos que aprenderam. O mesmo acontece com outros conhecimentos que passamos: os valores éticos que fazem parte do que chamamos de cultura familiar, escolar e social”, diz a psicóloga Maria Vitória.

E isso não significa nenhum tipo de abandono ou desatenção. Pais olham por seus filhos a vida inteira –e é ótimo que seja assim. “Os filhos são como embarcações. Navios não foram feitos para ficar no porto, têm de soltar as amarras. Mas o porto estará sempre lá para ele se abastecer. Quando o filho precisar de um aconchego, sempre poderá contar com a família”, afirma Maria Vitória.

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