Pós-parto

Como Adele, mães obcecadas pelo filho também podem ter depressão pós-parto

Grosby Group
A cantora Adele com o filho , Angelo, aos oito meses, no Central Park, em Nova York; hoje, o menino tem quatro anos Imagem: Grosby Group

Do UOL

18/11/2016 07h05

“Meu conhecimento sobre depressão pós-parto era de que você não quer ficar com seu filho”, declarou Adele à revista “Vanity Fair”, que sai em dezembro, ao comentar a dificuldade que teve de perceber que estava sofrendo com a doença, após o nascimento de Angelo, hoje com quatro anos. “Mas eu era obcecada pelo meu filho”, afirmou a cantora. “Eu me sentia inadequada. Era como se tivesse tomado a pior decisão da minha vida.”

A sensação a que Adele se refere é comum em mulheres que vivenciam a depressão pós-parto, segundo a psiquiatra Taciana Capitanio, que atende gestantes com transtorno mental no Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

A mulher pode sentir repulsa pelo bebê e ter pensamentos de machucar a si ou ao filho, mas, assim como ocorreu com a cantora inglesa, mães com depressão pós-parto também podem se tornar superprotetoras.

“Há mulheres que desenvolvem transtorno ansioso e mesmo transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC, associado à DPP [depressão pós-parto]”, diz a psiquiatra. Nesses casos, a mãe pode verificar a cada minuto se o bebê está respirando ou agasalhá-lo demais, por exemplo.

Diferentemente da melancolia da maternidade, também conhecida como “baby blues”, um quadro que ocorre com a maioria das mulheres e tende a melhorar gradualmente até a segunda semana pós-parto, a depressão pode surgir tanto entre a quarta e a sexta semana pós-natal, quanto em outros momentos do primeiro ano da criança.

“E pode se estender por um período de seis meses a dois anos”, declara Renata Pereira de Felipe, que desenvolveu sua tese de doutorado em psicologia experimental sobre depressão pós-parto, na USP (Universidade de São Paulo).

O que é importante frisar é que nem toda mãe com DPP interage da mesma maneira com os filhos. “Elas podem ser intrusivas, retraídas ou ter boa interação”, diz Renata. O primeiro grupo passa uma emoção negativa da própria afetividade. “Geralmente, elas estabelecem um contato físico áspero: fazem cócegas, cutucam ou puxam o bebê. E também exibem expressões faciais tensas ou falsas”, explica a doutora em psicologia experimental.

As mães deprimidas retraídas parecem totalmente desinteressadas da criança. “São mais quietas, distantes, desviam o olhar do filho e oferecem um suporte mínimo para ele”, fala a especialista.

O terceiro grupo é o mais difícil de ser percebido pelo par e pelos familiares, porque elas são responsáveis pelo cuidado com o filho e até sorriem. “Elas agem de modo semelhante às mães não deprimidas”, diz Renata.

Outros sintomas são essenciais para fechar o diagnóstico. “Cansaço, insônia, diminuição da disposição e redução da libido podem ser confundidos com queixas normais esperadas no contexto do pós-parto. Mas uma falta de energia tão intensa, em que a paciente não consegue levantar da cama, mesmo após horas de descanso, deve ser considerada um sinal de alerta. Ataques de pânico ou raiva também podem aparecer”, afirma Taciana Capitanio.

É preciso tratar

O psiquiatra Daniel Sócrates, doutor em psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo, explica que a DPP é mais comum em mães com histórico de depressão, mas a doença não exclui mulheres que nunca tiveram quadros depressivos.

“São considerados fatores de risco falta de apoio do parceiro ou da família, estresse intenso --quando o recém-nascido adoece ou há problemas financeiros, por exemplo– e violência doméstica, física ou emocional”, diz Sócrates.

Mulheres com história de desordem disfórica pré-menstrual, que é a forma grave de tensão pré-menstrual, também estão mais propensas ao quadro, de acordo com o médico.

Embora Adele tenha dito que não buscou ajuda médica para lidar com a depressão, mas se curou ao conversar com outras mães, a DPP precisa de tratamento para não se tornar crônica. Essa é a recomendação dos especialistas ouvidos pelo UOL, mesmo quando os sintomas não são intensos.

“A depender da gravidade do caso, é possível tratar sem medicação, apenas com psicoterapia”, diz Sócrates.

Quando necessários, os remédios receitados pelos especialistas são os que têm menor passagem para o leite. “Há medicações relativamente seguras, que praticamente não são absorvidas pelo bebê”, afirma Taciana.

O apoio familiar é imprescindível durante o tratamento. “Recomendamos ter por perto pessoas que acolham a mulher e que possam ajudá-la a cuidar do recém-nascido, possibilitando que descanse”, declara a psiquiatra.

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Saúde do homem também pode complicar gestações; veja entrevista

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 10% das mulheres grávidas e 13% das que acabaram de dar à luz sofrem algum tipo de distúrbio mental. Em países em desenvolvimento o índice sobe para 20%. A depressão seria o comportamento mais comum entre esses distúrbios e requer, na maioria das vezes, interferência psiquiátrica. Ela se difere de baby blues ou tristeza materna, que é uma situação considerada normal e temporária, e atinge cerca de 80% das mulheres. Depressão pós-parto e perda gestacional foi o tema da transmissão ao vivo da "TV Folha" nesta quarta-feira (27), com as participações da obstetra e ginecologista do Hospital das Clinicas de São Paulo Albertina Duarte e da especialista em cuidados com bebês e crianças Mariana Alves. A mediação é da blogueira Camila Appel, do "Morte Sem Tabu". Há alguns fatores de risco para se considerar, como passar por quebras de expectativas (ter imaginado o parto perfeito ou não sentir amor imediato pelo bebê), já ter tido depressões prévias e perdas gestacionais. O momento é de extremo cansaço para mãe, que pode sofrer de transtornos de humor normais em até um mês após o parto. Se o quadro se agrava depois do período, é recomendada a busca por ajuda médica. A perda gestacional impacta cerca de 10% das mulheres e é sentida como um luto profundo, por mulheres e homens. Entre as causas, Albertina destaca a má-formação do feto, infecções, falta de vitamina (D especialmente) e stress. Ressalta também que a perda pode acontecer devido a infecções presentes no esperma e por isso ser algo não apenas relacionado à saúde da mãe. Mariana fala em um aumento tanto de casos de depressão pós-parto quanto de perdas gestacionais. Albertina e Mariana concordam que sintomas da sociedade contemporânea estariam associadas a essa realidade, como o stress e a má alimentação.

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