Pós-parto

Com shoyu, gelatina ou em cápsula: mulheres contam por que comeram placenta

Juliana Pissuto/Reprodução
Fernanda Vieira ingeriu a placenta com gelatina na manhã seguinte ao parto Imagem: Juliana Pissuto/Reprodução

Melissa Diniz

Do UOL

14/02/2017 04h10

Comer a placenta não é somente coisa de celebridades como Bela Gil ou Kim Kardashian, já que diversas mulheres também têm adotado a prática. Esse foi o caso de Fernanda Gomes Vieira, 26, de Balneário Camboriú (SC), que teve um parto natural hospitalar e decidiu ingerir parte de sua placenta por curiosidade e acreditar que seria uma boa fonte de nutrientes, além de ajudar a prevenir a depressão pós-parto.

Meu plano era bater com suco de uva, mas acabei comendo crua mesmo, com gelatina, no café da manhã. Minha doula guardou um pedacinho para o hospital não jogar fora. Eu pari às 22h e consumi às 6h, quando acordei.
Fernanda Gomes Vieira

Embora não tenha certeza se conseguiu os benefícios que buscava, Fernanda, que é mãe de Angelina, um ano e dez meses, afirma que se sentiu ótima e bem-disposta no puerpério. “Não comeria crua de novo porque não gostei do sabor nem da textura. Tem um gosto bem forte de ferro e parece uma carne cheia de nervos, ruim de mastigar, além de ser salgada.”

“Eu e meu marido comemos com shoyu”

Por considerar o órgão --responsável por fornecer nutrientes e oxigênio ao bebê-- algo sagrado, a atriz e artista plástica Lua Rodrigues, 21, de Embu das Artes (SP), e o marido, Edgar Izarelli, 26, decidiram comê-lo após o parto de seu primeiro filho, Renato, um ano e nove meses.

Arquivo pessoal
À esq., a doula Aline Tarraga dá um pedaço de placenta a Edgar. À dir., Lua e o bebê Renato Imagem: Arquivo pessoal

Lua, que está grávida de 5 meses de uma menina, quer repetir o ato, pois acredita que tenha trazido benefícios físicos e espirituais ao casal. “Tive um parto domiciliar planejado e, logo após expelir a placenta, nós consumimos uma parte crua, com shoyo, e nos fez muito bem. Eu não tive depressão nem perda de cabelos, problemas comuns no pós-parto. Sem contar que sempre amamentei e ainda amamento em livre demanda.”

Já seu marido, acredita, experimentou uma conexão maior com o filho e, após o parto, teve paciência e tranquilidade para ajudar nos cuidados do bebê. “Comer a placenta nos trouxe uma sensação de força e resiliência, foi muito espiritual. ” Lua afirma não ligar para o julgamento da família e dos amigos. “Todos sabem que fiz isso e me acham nojenta. Compreendo, mas não me abalo, afinal, os benefícios foram reais e sentidos por nós dois”, diz.

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“Como a placenta de outras mulheres”

A francesa Ama Marie, 29, radicada no Brasil há seis anos, trabalha como doula e terapeuta especializada em medicina tradicional chinesa em Alto Paraíso, interior de Goiás. “Sempre aconselho as mulheres que me contratam a consumir a placenta. Explico que os chineses até utilizam o órgão como matéria-prima para remédios, por conta dos hormônios que contém, como a ocitocina, que ajuda na amamentação e colabora para que o útero contraia, voltando ao normal após o parto”, diz. 

Arquivo pessoal
Doula manipula a placenta de Lua Imagem: Arquivo pessoal

Quanto mais sangue as mulheres perdem no parto, explica, mais sentem vontade comer a placenta. “Dá energia, pois tem muito ferro. Já vi algumas mulheres ingerirem quase inteira. Sempre que elas comem, como também, pois o trabalho de parto dura horas e é desgastante”, diz Ama. Na maioria das vezes, a placenta é consumida crua, mas também pode ser cozida, encapsulada ou usada no preparo de tinturas (remédios fitoterápicos).

Ama diz que, embora já tenha pensado sobre possíveis riscos do procedimento à saúde, não se apega a eles. “Sei avaliar se a mulher é saudável e todas passam por um pré-natal antes, no qual fazem diversos tipos de exames para descartar doenças.”

“Tomava duas cápsulas ao dia e a melancolia ia embora”

Arquivo pessoal
Ana Paula Cabral e a filha Nalu, hoje com dois anos Imagem: Arquivo pessoal

Ana Paula Cabral, 34, de Florianópolis, tentou fazer um parto normal humanizado no nascimento da segunda filha, Nalu, dois anos, mas acabou precisando de uma cesárea. “A ingestão da placenta foi mencionada na roda de gestantes que participei. Achei uma boa ideia, mas como não sabia se teria coragem de consumir 'in natura', pedi para parteira encapsular.”

Ingerir como medicamento, diz, a ajudou a prevenir fraqueza, anemia e depressão. “Tomava sempre duas cápsulas ao dia, no fim da tarde, quando batia a melancolia, e ela ia embora rapidinho. Faria de novo, com certeza. O pós-parto é um período muito difícil, tudo que puder ajudar nesse momento é bem-vindo.”

Possível efeito placebo

Segundo a obstetriz Ana Cristina Duarte, coordenadora do GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), que estimula partos humanizados, comer placenta é algo que vem sendo registrado já há algumas décadas. “Essa uma prática alternativa que surgiu há uns 40 anos, principalmente na Europa e Nos Estados Unidos."

Acredito que o ato de comer a placenta seja inspirado na natureza, pois os mamíferos a ingerem por ser uma fonte de proteínas fácil e rápida e também para não deixar rastro para predadores.
Ana Cristina Duarte

Reprodução/Instagram
Bela Gil revelou que consumiu sua placenta com vitamina de banana e encapsulou o restante para continuar tomando Imagem: Reprodução/Instagram

Embora não seja adepta nem defensora da placentofagia, Ana Cristina acredita que ela tenha alguma espécie de efeito placebo --que produz uma ação positiva não atribuída às substâncias presentes no material, mas à crença de que funcionem-- sobre as mulheres que acabaram de parir.

Uma revisão bibliográfica, publicada periódico científico “Ecology of Food and Nutrition”, em 2013, avaliou os efeitos sentidos por 189 mulheres que consumiram a própria placenta. Para elas, ingerir o órgão cru ou cozido trouxe benefícios à saúde, especialmente no que diz respeito à recuperação e à prevenção da depressão pós-parto. O estudo, no entanto, não avaliou o efeito placebo da prática.

Ana Cristina considera a prática de consumir a placenta de outra pessoa crua perigosa para a saúde. “Mesmo que a mulher tenha passado pelo pré-natal, pode estar em uma janela imunológica, ou seja, o exame pode ter dado um falso negativo. Há risco, inclusive, de contrair hepatite B.”

Sem comprovação científica

De acordo com o ginecologista Marcio Coslovsky, especialista em reprodução humana e diretor da Clínica Primordia, no Rio de Janeiro, não há nenhuma evidência científica que comprove os benefícios de ingerir a placenta após o parto.

O médico alerta que pode haver problemas no armazenamento do material biológico, que se degrada rapidamente em altas temperaturas, podendo gerar contaminação. “Nos Estados Unidos e Europa, já surgiram empresas comercializando cápsulas e cobrando caro, algumas delas tiveram registro cancelado pelas autoridades de saúde”, afirma.

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Saúde do homem também pode complicar gestações; veja entrevista

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 10% das mulheres grávidas e 13% das que acabaram de dar à luz sofrem algum tipo de distúrbio mental. Em países em desenvolvimento o índice sobe para 20%. A depressão seria o comportamento mais comum entre esses distúrbios e requer, na maioria das vezes, interferência psiquiátrica. Ela se difere de baby blues ou tristeza materna, que é uma situação considerada normal e temporária, e atinge cerca de 80% das mulheres. Depressão pós-parto e perda gestacional foi o tema da transmissão ao vivo da "TV Folha" nesta quarta-feira (27), com as participações da obstetra e ginecologista do Hospital das Clinicas de São Paulo Albertina Duarte e da especialista em cuidados com bebês e crianças Mariana Alves. A mediação é da blogueira Camila Appel, do "Morte Sem Tabu". Há alguns fatores de risco para se considerar, como passar por quebras de expectativas (ter imaginado o parto perfeito ou não sentir amor imediato pelo bebê), já ter tido depressões prévias e perdas gestacionais. O momento é de extremo cansaço para mãe, que pode sofrer de transtornos de humor normais em até um mês após o parto. Se o quadro se agrava depois do período, é recomendada a busca por ajuda médica. A perda gestacional impacta cerca de 10% das mulheres e é sentida como um luto profundo, por mulheres e homens. Entre as causas, Albertina destaca a má-formação do feto, infecções, falta de vitamina (D especialmente) e stress. Ressalta também que a perda pode acontecer devido a infecções presentes no esperma e por isso ser algo não apenas relacionado à saúde da mãe. Mariana fala em um aumento tanto de casos de depressão pós-parto quanto de perdas gestacionais. Albertina e Mariana concordam que sintomas da sociedade contemporânea estariam associadas a essa realidade, como o stress e a má alimentação.

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