Gravidez e filhos

Para acalmar bebês prematuros, voluntários fazem polvos de crochê

Arquivo pessoal
Polvinhos de crochê feitos por Dani Dalledone e suas alunas Imagem: Arquivo pessoal

Denise de Almeida

Do UOL

28/03/2017 23h16

Parece um brinquedo fofo: polvos feitos de lã, com tentáculos em espiral, repousam ao lado de recém-nascidos em fotos que se multiplicam pelas redes sociais. Mas a novidade que surgiu na Dinamarca é uma iniciativa para tentar acalmar bebês prematuros internados em hospitais, e tem ganhado a adesão de brasileiros.

A ideia partiu do Spruttegruppen, um grupo dinamarquês que criou o “Octo Project” (“Projeto Polvo”, em tradução livre) em 2013. O site oficial da iniciativa explica que os tentáculos do objeto se assemelham ao cordão umbilical, fazendo os prematuros lembrarem do período em que estavam no útero.

Hoje, o grupo dinamarquês distribui os polvos em maternidades do país e em um hospital da Groenlândia, além de ter ajudado a reproduzir o projeto na Suécia, Noruega, Islândia, Alemanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França, Itália, Turquia, Croácia, Israel, Palestina, Austrália e Estados Unidos.

“Vimos que essas fotos começaram a viralizar no início deste ano e resolvemos encabeçar isso no Brasil, porque tem se mostrado benéfico para os bebês. Segurar algo que se assemelha ao cordão umbilical parece acalmar os prematuros: ajuda a estabilizar os batimentos cardíacos, a respiração. E é uma coisa muito simples de se fazer”, conta Denise Leão Suguitani, diretora da ONG Prematuridade (Associação Brasileira da Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros). 

Arquivo pessoal
"Ele fica mais tranquilo segurando os tentáculos", conta Kika, mãe de um bebê prematuro Imagem: Arquivo pessoal

A ONG, que luta pelo bem-estar dos bebês nascidos prematuramente, criou a versão brasileira do projeto, batizada de "Um Polvo de Amor". 

Uma das mães que tem experimentado a novidade é a empresária Kika Duarte, mãe de um bebê que nasceu com 27 semanas, o que é considerado um prematuro extremo. "Ele está na UTI há dois meses e agora que está começando a melhorar e interagir. E toda hora ele puxava a sonda, arrancava o cateter. Uma enfermeira me explicou que, dentro do útero, os bebês costumam puxar o cordão umbilical. Então, depois de nascer ele puxa mesmo qualquer fio que encontra, por instinto".

Mas a atitude instintiva pode causar problemas quando o bebê está na UTI. “Eles arrancam tudo e ficar passando cateter e sonda toda hora é muito difícil para o bebê, porque ele ainda é muito delicado. Posso dizer que agora meu filho não tem arrancado mais os fios, como fazia. Acredito que o polvo tenha ajudado bastante. Os bebês ficam mais tranquilos segurando os tentáculos", opina a empresária.

Resistência da equipe médica

Por ficar em contato direto com bebês que inspiram mais cuidados, alguns médicos não veem a novidade com bons olhos. "A princípio, tive um pouco de resistência do hospital, mas encontrei uma médica que é adepta a novas formas de tentar acalmar os bebês e pude levar o polvo", conta Kika. "Algumas enfermeiras não curtem, por ser meio de cultura de bactérias. Chegam a tirar da incubadora. Meu filho não fica o tempo inteiro com o polvo, depende do plantão, mas eu até entendo o hospital”. 

Arquivo pessoal
Dani Dalledone faz os objetos de forma voluntária: "não tenho nem coragem de cobrar" Imagem: Arquivo pessoal

Denise espera poder rebater as críticas com dados científicos. "Várias pessoas criticam, dizendo que podem trazer infecção, e ainda não há nenhum estudo científico. Estamos recomendando aos hospitais que já estão ou que querem entrar no projeto que comecem a documentar todo o passo a passo da intervenção, para a gente poder ter embasamento, fazer algo baseado em evidências". 

Kika explica que também se preocupa e toma alguns cuidados com a higiene da peça. "Se você bobear, o bebê pode fazer um xixi e atingir o polvo. Corre o risco de desenvolver bactérias, o que é muito perigoso na UTI. Por isso eu tiro da incubadora, que é muito quente e onde germes podem crescer mais rápido, e lavo a cada dois dias".

Para higienizar o polvo, ela toma os mesmos cuidados que tem com as roupinhas do bebê. "Lavo ele na mão, com sabão de coco. Deixo de molho também e, quando seca, eu levo de volta para o hospital. Eu indico para as mães terem mais de um polvo, porque todo dia acontece de sujar e estou lavando ele com muito mais frequência".

Voluntárias em ação

Desde o projeto original, a ideia é que os polvinhos não sejam comercializados, mas sim feitos e distribuídos de forma voluntária. A mesma recomendação é adotada pela versão brasileira da iniciativa. A diretora da Prematuridade conta que tem sido procurada por hospitais que querem implementar e pessoas que querem fazer o crochê. "Como não temos braços para conectar diretamente as pessoas, disponibilizamos uma lista de receptores e outra de doadores no site, onde as pessoas podem se achar, na sua cidade ou na cidade mais próxima. Tem dado bem certo". As voluntárias já cadastradas são quase 50, de 14 diferentes Estados.

O site também se preocupa em orientar a como fazer o polvo corretamente, até com um passo a passo disponibilizado online. “O tentáculo não pode ser muito comprido, porque pode oferecer risco ao bebê, e o ideal é usar linha 100% algodão, porque ela resiste a altas temperaturas", exemplifica Denise.

Ela não é mãe e ajuda pequenos bebês, de graça

Uma das voluntárias que aderiram à iniciativa foi a designer Dani Dalledone, de Curitiba. Professora de crochê na capital paranaense, ela não tem filhos, mas se sensibilizou com a história de Kika e seu bebê prematuro. "Nem busquei as referências oficiais da Dinamarca, fui fazendo da minha cabeça, mesmo. Daí fotografei e mandei para a Kika, dizendo que queria enviar para ela, mesmo sem saber se o hospital permitiria. Na pior das hipóteses, o bebê iria brincar quando saísse da incubadora".

Ela conta que fez o objeto junto com as amigas, que acabaram se interessando em também reproduzir a ideia. "Fizemos até um vídeo para o canal do Youtube, aí as pessoas que vinham me pedir para ensinar já poderiam encontrar o passo a passo. Depois disso, o hospital de Ponta Grossa quis também e o movimento começou a pegar fogo", afirma.

A designer conta que seu grupo de mais de 100 alunas ficou empolgado e procurou mais hospitais interessados. Hoje, mais duas maternidades curitibanas já estão em contato para o envio dos polvinhos de crochê. "É tudo feito de forma voluntária. Como eu tenho muitos fios, distribuí os que eu tinha e minhas alunas fizeram 15 só no último final de semana”.

Dani explica que a proposta dela é sempre a de doar os polvos. "Eu não tenho muito tempo de fazer, mas duas meninas me pediram, uma do Espírito Santo e outra de Rondônia, e vou doar. Elas só vão pagar o frete, porque eu não tenho nem coragem de cobrar algo de quem está em uma situação delicada como a que elas estão vivendo".

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