Moda

Yves Saint Laurent: como um estilista mudou a moda para sempre

Divulgação
Yves Saint Laurent em sua mansão em Marrakech, no Marrocos Imagem: Divulgação

Dominic Lutyens

Da BBC Culture

03/12/2017 10h39

Décadas após Yves Saint Laurent abrir seu ateliê, em 1961, seu trabalho ainda desperta fascinação.

Dois filmes sobre o estilista nascido na Argélia, mas naturalizado francês, foram lançados em 2014.

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E o recente falecimento de seu sócio e marido, Pierre Bergé, trouxe à tona novamente seu incrível legado.

Para se ter uma ideia das paixões que o estilista suscita, houve protesto em 2012, quando a grife decidiu abreviar seu nome para 'Saint Laurent'.

A loja parisiense Colette, por exemplo, lançou uma linha de camisas com o slogan "Não é Laurent sem Yves".

Museus

A vida e obra de Saint Laurent foram imortalizadas pela abertura de dois museus em outubro. Um deles na capital francesa - o Museu Yves Saint Laurent -, localizado no mesmo prédio onde funcionava a maison do estilista de 1974 a 2002.

O outro? Fica no Marrocos. Mais precisamente em Marrakech, em um edifício novo, com 4 mil metros quadrados de área, bem próximo ao Jardin Majorelle, comprado pelo casal em 1980.

Saint Laurent, cuja carreira começou sob a tutela de Christian Dior, outro ícone da moda, foi o primeiro estilista a arquivar seu trabalho de forma sistemática, o que proporcionou aos museus um rico acervo para a exposição.

A instituição em Paris, por exemplo, conta com mais de 5 mil peças de roupa, 15 mil acessórios e milhares de desenhos, amostras de tecido e vídeos de desfiles.

"Nossa ideia é dar aos visitantes uma compreensão do processo criativo por trás do design de uma peça", explica Olivier Flaviano, diretor do museu.

Tudo sobre Yves

O museu também oferece um olhar mais pessoal sobre a vida do estilista. Apresenta fotos dele com Bergé e imagens de suas casas, que sempre atraíram quase tanta atenção quanto os figurinos.

O ateliê original de Saint Laurent foi recriado minuciosamente. "Temos a mesa em que ele trabalhava, por exemplo", explica Flaviano.

"Outros objetos incluem um par de leões de bronze que Saint-Laurent, muito supersticioso, comprou porque seu signo era Leão. Há fotos de seus cachorros e uma bengala usada por Dior."

A primeira exposição em Paris retrata a coleção lançada por Saint Laurent em 1962. Naquele ano, o estilista apresentou um caban - modelo de casaco que costumava ser usado por marinheiros europeus para enfrentar as baixas temperaturas em alto-mar.

Esse é um exemplo de uma de suas ideias mais geniais - a incorporação de roupas masculinas ao guarda-roupa feminino.

O espaço da exposição foi configurado pela cenógrafa Nathalie Crinière e pelo decorador Jacques Grange, que assinou a eclética e vanguardista decoração, nos anos 1970, de um dos apartamentos de Saint Laurent e Bergé em Paris.

Já o museu de Marrakech conta com mil peças criadas pelo estilista, emprestadas da fundação em Paris, que fazem parte de uma exposição permanente idealizada pelo cenógrafo Christophe Martin. Há também uma biblioteca com livros sobre a história da arte e de Marrocos, um auditório para palestras e um café.

O edifício não tem janelas, mas o projeto não foi feito por acaso pelo escritório francês de arquitetura Studio KO. Segundo o sueco Björn Dahlström, diretor do museu, é uma forma de mitigar os efeitos do calor sobre a coleção do museu.

"Não há janelas para proteger as roupas da incidência direta da luz do sol", explica.

"Em Marrakech, a diferença de temperatura entre o dia e a noite é grande. A temperatura ambiente deve ficar entre 20°C e 25°C."

Marrocos, fonte de inspiração

Paris e Marrakech são locações apropriadas para museus sobre Saint Laurent. Ele passou a maior parte de sua vida entre as duas cidades.

Em 1966, o estilista conheceu Marrakech, que passou a ser um refúgio da vida atribulada e disciplinada que ele tinha na capital francesa.

Foi na cidade marroquina, por exemplo, que Saint Laurent decidiu no fim da década de 1960 deixar o cabelo crescer e fazer farra com os amigos, fumando maconha e usando batas indianas.

"No Marrocos, descobri uma variedade de cores em mosaicos, pinturas e nas roupas locais. Devo a este país a ousadia do meu trabalho. Às suas audaciosas combinações", disse ele uma vez.

Vanguarda e rebeldia

Foi esse aspecto também que deu início à obsessão do estilista, nos anos 1970, com trajes mais suntuosos de países exóticos e que inspiraram algumas de suas mais emblemáticas coleções - uma sobre a Rússia (1976), influenciada por temas cossacos (povo que vivia nas estepes da Europa oriental), e outra sobre a China (1977), que apresentou chapéus laqueados e ombreiras inspiradas em pagodes.

Fondation Pierre Bergé - Yves Saint Laurent, Paris/Alexandre Guirkinger
Alguns exemplos de criações inovadoras do estilista Imagem: Fondation Pierre Bergé - Yves Saint Laurent, Paris/Alexandre Guirkinger

O que hoje parece retrógrado foi extremamente rebelde e vanguardista na época. Na maison Dior, por exemplo, Saint Laurent desprezou o "padrão ampulheta", notoriamente usado pelos estilistas, ao criar, em 1958, um vestido em forma de trapézio. Em 1960, sua última coleção pela Dior foi dominada pelo preto.

Em 1966, foi a vez de apresentar um "smoking unissex", destinado a ajudar as mulheres a se libertarem dos estereótipos de gênero no vestuário. Foi naquele mesmo ano que Saint Laurent se tornou o primeiro estilista a lançar uma coleção pret-à-porter.

Ele também buscou inspiração nos protestos estudantis que sacudiram Paris em 1968 e, ao posar nu como parte da campanha publicitária de seu primeiro perfume, em 1971, fez um pronunciamento pela liberação sexual.

Parte do apelo que o estilista tem hoje se deve também a parcerias com ícones de estilo, como Paloma Picasso, que produziu acessórios para sua grife, assim como a modelo britânica Loulou de la Falaise, sua musa.

Acervo

Segundo Flaviano, Saint Laurent decidiu arquivar seu trabalho pela primeira vez em 1962.

"Conversei com Bergé sobre isso e ele me disse que tudo começou quando Saint Laurent gostou tanto de um vestido de festa marrom que decidiu guardá-lo."

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Croquis, como estes desenhados para uma coleção de 1962, podem ser vistos na exposição em Paris Imagem: Divulgação

"Com o passar dos anos, ele ficou com mais e mais peças. Inicialmente, eram guardadas em baús, já que nos anos 60 não havia a ideia de ter um espaço para armazenar as roupas de maneira adequada", explica.

A partir da década de 1980, Saint Laurent adotou o costume de escrever a palavra "museu" ou simplesmente "m" para mostrar que queria arquivar determinados itens. E, a partir de 1997, as peças passaram a ser guardadas em um armazém especial, no subúrbio parisiense de La Villette.

Depressão e timidez

Saint Laurent era tímido e sofria de depressão, mas tinha uma autoconfiança inabalável e acreditava que seu trabalho deveria ser preservado para a posteridade. Talvez fosse um reflexo de sua paixão pelas artes - ele e Bergé tinham uma coleção impressionante. E seus desenhos foram frequentemente inspirados por artistas - o que fez o estilista acreditar que seu trabalho extrapolava as fronteiras da moda.

Bergé era quem promovia o marido. Foi ideia dele a retrospectiva no Metropolitan Museum, em Nova York (1983), por exemplo. Ele também convidou literários de peso, como Marguerite Duras e Bernard Henri-Levy, a escreverem sobre Saint Laurent, o que rendeu ao estilista status intelectual.

Os dois museus representam agora o auge dessa ambição.

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