Moda

Com cobrança dos leitores, blogs de moda ficam mais interessantes

Montagem/UOL
As páginas Chata de Galocha, Blog da Tássia, Shame on You, Blogueira, e Blog da Lalá Noleto estão entre as mais conhecidas da blogosfera nacional de moda Imagem: Montagem/UOL

Augusto Paz

Do UOL, em São Paulo

“Não é o mais forte que sobrevive, ou o mais inteligente, mas aquele que se adapta melhor a mudanças”. A frase de Charles Darwin, pai da teoria evolucionista, cai como uma luva quando o assunto é a moda e sua comunicação. No mundo das linhas e agulhas, as coisas se transformam com velocidade assombrosa: a peça-desejo de ontem, hoje virou pano de chão e o estilista queridinho da crítica pode cair no ostracismo em um piscar de olhos. Com o advento da internet, os processos se tornaram ainda mais rápidos e quem não se adapta rapidamente, pode ficar para trás.

Assim acontece na blogosfera de moda, que nos últimos tempos observou acontecimentos importantes, como o florescimento do blog "Shame on You, Blogueira de Moda", capitaneado pela mineira Priscila Rezende, que, sob o pseudônimo de Blogueira Shame, denuncia casos de propaganda não-identificada em páginas de moda e outros episódios igualmente pouco lisonjeiros, mas bem mais bizarros. Além disso, tivemos a advertência pública emitida pelo Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) contra a gigante da cosmética Sephora e três blogueiras brasileiras, por propaganda velada, como foi noticiado pela Folha, na época.

A paranaense Ana Paula Passarelli é gerente de relacionamento com cliente da FiveBlu, empresa de fast-fashion exclusivamente digital e filha mais nova da calçadista alemã Dafiti. Ela tem larga experiência com ações envolvendo blogueiras de moda e derruba alguns dos mitos da categoria. Para ela, foi-se o tempo em que as meninas dos blogs eram vistas como formadoras de opinião inquestionáveis. Para Ana, a influência da blogueira é igual à de uma pessoa normal “A tendência é que mais pessoas comuns ganhem força como formadores de opinião, descentralizando as ações e as opiniões, o que para as marcas é ótimo. No fim das contas, a internet é só um meio de propagação. O que torna a blogueira influente ou não é o quanto ela se dedica a manter sua rede de contatos ativa”. Ela explica ainda que os critérios da FiveBlu para a escolha de blogs para ações de marketing obedecem a um quesito simples: retorno. O resultado é surpreendente. Muitas vezes, blogs pequenos e menos famosos geram mais retorno e visibilidade para a marca contratante, porque o leitor se sente mais envolvido com o blogueiro.

É justamente essa proximidade com o leitor que pode comprometer a credibilidade de uma página. Por se sentir tão “íntimo” do dono de seu blog predileto, o leitor se sente confortável para cobrar mais qualidade no conteúdo acessado. “Estamos numa nova fase em que o público tem estado muito mais atento ao conteúdo e à postura do blogueiro, cada passo pode contar a favor ou contra” diz Thálassa Coutinho, dona do blog Botica Urbana. A carioca faz pesquisas constantes na área de moda e investe em técnicas de otimização em ferramentas de busca, tudo para acompanhar o crescente nível de exigência de seu público. Ela pontua a adaptabilidade como uma característica vital para o sucesso de um comunicador de moda independente: “Todos os dias você ganha novos leitores, então todo dia você precisa ser criativo para engajar os novos e fidelizar os antigos”.  A veterana Chiara Gadaletta tem discurso parecido: “Hoje, os internautas participam muito mais, interagem e deixam suas impressões. Assim, a exigência também cresce e as informações vão ficando mais legítimas e interessantes”.

Vale a pena a reflexão: será que essa tendência de aprimoramento de conteúdo e formato é geral? Qual o valor de um blog que só tem a acrescentar o look do dia ou o achadinho da semana? Quem é mais interessante, a blogueira celebridade que só faz falar de si ou a página menor que é rica em informação de moda? A sensação que fica é a de que blogs com mais conteúdo atraem leitores com mais conteúdo e vice-versa, o que leva a crer que cada blog tem o leitor que merece.

Em termos de história da moda, os blogs reforçam tendências comportamentais que começaram a ser observadas nos anos 1960. As páginas de moda independentes enchem de vigor o estilo das ruas. Não mais os "couturiers" ou os grandes designers são os ditadores absolutos do estilo. Os blogs de moda conquistaram poder, mas – como se dizia na história em quadrinhos – com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

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