Moda

Demanda reprimida impulsiona mercado do luxo no país

Por Carolina Schwartz

01/06/2005 17h42

SÃO PAULO (Reuters) - Anos de reserva de mercado talvez ajudem a explicar por que há um público cada vez mais ávido em consumir artigos de luxo no Brasil, onde o segmento atravessa uma fase de ascensão, que deve prosseguir pelos próximos 10 anos.

A projeção otimista vem de alguém que acredita tão fortemente no potencial desse setor que até apostou, no ano passado, na criação de um curso para gestores ligados a esse mercado de bens exclusivos.

À frente do MBA em gestão do luxo na faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), o economista Silvio Passarelli diz ter feito um curso voltado para a preparação de uma "elite dirigente".

Ele lembra que esse movimento de consumo foi impulsionado pela redução das alíquotas de importação a partir dos anos 1990 e, desde então, não parou de crescer.

"Acredito que (esse mercado) ainda não tenha ocupado nem 50 por cento do potencial de consumo", afirmou ele em entrevista à Reuters na faculdade, localizada num bairro nobre de São Paulo. Segundo estimativas, o mercado do luxo -- que passa por imóveis de alto padrão, carros fabricados em edição de menos de mil exemplares e canetas incrustadas com diamantes -- movimenta anualmente 2,3 bilhões de dólares no país. O público-alvo, mas não único, seriam os brasileiros com renda familiar de pelo menos 35 mil reais por mês.

"Mas a renda não é tudo. O mais importante é o padrão de consumo, a pessoa tem que saber valorizar o produto. (O luxo) vai além da satisfação de uma mera necessidade", disse o professor.

Sintomática do momento que o setor atravessa é a abertura, no início de junho, da nova loja da Daslu, que é símbolo do luxo em âmbito nacional. Em um espaço de 20 mil metros quadrados, o novo empreendimento de Eliana Tranchesi promete satisfazer todas as fantasias reprimidas da classe A -- porém não só dela.

"A classe média sempre teve a aspiração de, de alguma maneira, imitar o padrão de consumo e o estilo de vida dos segmentos superiores da sociedade", disse Passarelli, de 54 anos, cuja formação é em economia e marketing.

Para ele, esse anseio de compartilhar de produtos mais exclusivos é "positivo". "Parto da premissa que dinheiro não tem carimbo."

O professor lembra, contudo, que embora a classe média tenha no Brasil até a possibilidade de parcelar uma jóia comprada em uma joalheria como a Tiffany's, o chamado "luxo inacessível" continua a ser o que define esse mercado. "A classe média nem querendo vai comprar uma Ferrari."

Levando-se em conta que um assalariado da região metropolitana de São Paulo ganha, em média, 1.070 reais por mês, segundo o Dieese, ele levaria 115 anos para comprar um dos veículos da montadora italiana, orçado em 1,6 milhão de dólares.

EXCLUSIVIDADE X MASSIFICAÇÃO

O conceito de "clube para poucos" é tão forte no mercado de luxo que há quem aponte riscos nas proporções ampliadas da Daslu, que poderiam não garantir a seus antigos clientes a mesma sensação de exclusividade.

A loja foi criada em residências na Vila Conceição, bairro de classe alta em São Paulo, o que lhe conferia um ar intimista. No novo formato, junto à Marginal Pinheiros, ela poderá acabar atraindo um público maior e mais diversificado.

"A Daslu foi até agora um dos melhores 'cases' de sucesso do ramo...Mas me parece que será uma nova realidade, as próprias características do novo projeto forçam a direção a reinventar a loja, não será simplesmente transpor a antiga", disse Passarelli.

Formada por "corners" de grandes grifes internacionais, como Christian Dior ou Gucci, a Daslu fez do atendimento ao cliente seu diferencial, utilizando-se, por exemplo, de vendedoras provenientes de famílias tão abastadas e ilustres quanto às das próprias clientes -- a filha do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, começou na butique como uma delas.

Segundo Passarelli, a preocupação é de que, seguindo-se à onda da Daslu, apareçam diversas propostas para lojas parecidas em outros pontos da cidade. "O Brasil entra atrasado nos negócios e depois corre atrás com pressa e sem ordenação nem ética."

"Temos que tomar cuidado com a quantidade de empreendimentos, porque não há espaço e cedo ou tarde a fonte seca", alertou.

A Daslu preocupa-se a tal ponto em manter a aura de "clube fechado" que repetidos pedidos de entrevista da Reuters com a direção da companhia foram negados.

Um assessor explicou que pelo fato de a Reuters ser uma agência de notícias havia o risco de espantar parceiros da loja, que poderiam ver um artigo sobre ela em um jornal de menor prestígio. "A Daslu é para iniciados, não queremos massificar", afirmou.

Ainda que em expansão, Passarelli vê esse mercado de luxo da mesma forma não-inclusiva -- "o consumo é hierárquico por natureza", ponderou

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