Moda

De volta à moda, Carmen Miranda ganha biografia e exposição

09/12/2005 13h32

SÃO PAULO - Os balangandãs de Carmen Miranda voltam aos poucos a fazer barulho, 50 anos depois de sua morte. Primeira celebridade instantânea no Brasil, nos anos 1930, e responsável por introduzir o samba nos EUA na década seguinte, a cantora ressurge agora em uma biografia de 600 páginas escrita por Ruy Castro, cujos direitos para TV acabam de ser vendidos para a rede Globo.

"A Globo já comprou para a televisão para fazer uma minissérie ou coisa parecida, daqui a dois anos", disse Ruy Castro à Reuters, completando que os direitos não incluem cinema.

A nova onda Carmen Miranda, que autorizou o uso generalizado dos turbantes no lugar dos chapéus femininos e eternizou marchinhas de Carnaval na década de 1930, traz, além do livro e da promessa de um programa na Globo, uma megaexposição no Rio de Janeiro até 22 de janeiro.

Para o biógrafo Ruy Castro, Carmen pode ser abordada de várias maneiras. Uma das mais interessantes foi o jeito como ela "institucionalizou a alegria brasileira", num período quando intelectuais em São Paulo traçavam uma genealogia nada instigante do brasileiro -- como a tese de Paulo Prado, na qual o brasileiro era resultado de três raças tristes, a do índio, do negro e do português.

"Carmen desmoraliza essa afirmação. Ela era portuguesa de nascimento, brasileira por adoção total e cantava um tipo de música com profundas raízes negras, que é o samba", disse Castro. "Ela definiu o que era alegria brasileira."

Esse legado poderá ser visto na exposição "Carmen Miranda para Sempre", organizada pela CMG Worldwide, empresa detentora dos direitos de imagens de celebridades como James Dean, Sophia Loren e outras centenas.

A mostra reúne 700 itens de acervos da família, de colecionadores e do próprio museu que leva seu nome, mas fica em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio.

Carmen, que trabalhou em chapelarias na Lapa e comprava os tecidos para fazer suas próprias roupas e fantasias, ganhou releituras de suas criações em uma parte da exposição, duas delas assinadas pela Salinas, que no último Fashion Rio encheu sua passarela de caixas de bananas, lenços coloridos nos cabelos das modelos e o sorriso larguíssimo da cantora estampado em camisetas.

O espírito da Pequena Notável -- Carmen tinha 1,52 metro de altura e conseguia aumentar de tamanho em até nove centímetros com altíssimas plataformas -- deverá inundar a moda feminina deste verão, com a temática tropical aparecendo em roupas e acessórios.

CARICATURA E MUSA DO TROPICALISMO

Esse movimento de resgate contrasta, porém, com o esquecimento no qual Carmen Miranda mergulhou por décadas após morrer no auge de sua carreira nos Estados Unidos aos 46 anos, de enfarte, em sua casa de Beverly Hills.

Para Caetano Veloso, que teve Carmen como uma de suas musas no Tropicalismo, ela "era mais uma ausência do que uma referência nas conversas sobre música popular no Brasil pós-bossa nova", escreveu o cantor e compositor em seu livro "Verdade Tropical" (1997).

Ao embarcar para os Estados Unidos, após ser contratada por um importante empresário da Broadway em 1939, Carmen vai aos poucos deixando sua faceta intérprete -- que eternizou canções como "Na Baixa do Sapateiro", "Tico-tico no Fubá", "Mamãe Eu Quero" e "South American Way" -- para virar uma performer e comediante, arrancando risadas das platéias com seu inglês rudimentar mas cheio de charme.

A fantasia de baiana estilizada, criada para a canção "O que é que a Baiana Tem?" (1938), de Dorival Caymmi, foi ganhando cada vez mais adereços e cores, conquistando o público norte-americano e permanecendo como símbolo estereotipado de um Brasil tropical.

"O fato de ela ter se tornado (...) uma figura caricata de que a gente crescera sentindo um pouco de vergonha, fazia da mera menção de seu nome uma bomba de que os guerrilheiros tropicalistas fatalmente lançariam mão", continua Veloso, contando como Carmen chegou a ser resgatada no final dos anos 1960.

Outro exemplo desse esquecimento histórico é o estado do próprio Museu Carmen Miranda, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, como afirma uma de suas sobrinhas, Carmen de Carvalho Guimarães, 69 anos, conhecida como Carminha.

"Ele não está jogado, é bem cuidadinho, mas não tem verba. Não tem nem ar-condicionado. As fantasias vão estragando...", disse em entrevista.

"Queremos até aproveitar essa fase para ver se o governo do Estado arruma outro local, quem sabe na Lapa, porque seria muito mais visitado. O museu é muito pouco visitado. É mais visitado por estrangeiros do que por brasileiros."

Nascida em Portugal, Carmen Miranda chegou ao Rio de Janeiro antes de fazer 1 ano de idade, em 1909. Cresceu tendo como cenário a boemia da Lapa e tinha como sonho ser cantora ou atriz, mas acabou indo bem mais longe, finalizando sua curta carreira com 20 filmes -- 14 deles nos EUA -- e 159 discos.

Para Carminha, que chegou a viver com a tia, a razão de tanto sucesso estava no carisma e no gestual conquistador de Carmen, que em 1944 chegou a ser a artista mais bem paga dos EUA.

"Como dizia (o músico) Aloysio de Oliveira, a Carmen podia cantar em chinês, japonês, em inglês, a língua que fosse, mas era o jeito dela cantar, os gestos que ela fazia que conquistavam todo mundo", disse a sobrinha.

"Ela criou um estilo e uma fantasia que sempre me lembram o Charles Chaplin. Para ele, era a cartola e a bengala, e para ela, foi realmente o traço estilizado da baiana."

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