Estilo de vida

Colunista aborda sexo hilário

IVAN LESSA
colunista da BBC Brasil

"Meu companheiro não demonstra o mesmo interesse anterior pelo ato sexual. Para ser franca, eu também não acho mais muita graça."

 

"Vocês precisam se sentar e ter uma boa conversa sobre o assunto."

 

A pergunta é representativa de uma coluna que, semana após semana, leio avidamente no meu jornal predileto, o "Guardian". O nome da página do segundo caderno é "Sexual Healing", ou seja, "Cura Sexual". O assunto é precisamente esse que o distinto leitor ou leitora adivinhou. Nada como o jornalismo moderno e vibrante para dar nome às coisas.

 

O interessante mesmo - e estou sendo meio hipócrita - é quem assina a coluna. Pamela Stephenson. Ou, conforme os registros, Pamela Stephenson Connolly. Pamela nasceu na Nova Zelândia e se formou em arte dramática na Austrália, até que, em 1976, mudou-se para Londres, onde continuou na profissão de atriz, com ênfase na comédia.

 

Nos anos 80, fez parte de um grupo destinado a marcar a história do humor na televisão britânica. Toda semana ia para o ar o "Not The Nine O'Clock News", transmitido pela BBC. Fez história. Só perderiam, numa votação de programas mais engraçados e originais de todos os tempos, para os rapazes do Monty Python.

 

Juntamente com ela, faziam parte do quarteto Mel Smith, que chegou a dirigir cinema em Hollywood, sem muito sucesso, Griff Rhys Jones, que anda por aí numa boa, e, na época e logo depois, o esplêndido Rowan Atkinson, que infelizmente alcançou sucesso internacional com um personagem detestável, o Mister Bean, que acho que vocês conhecem.

 

O negócio é Pamela. Se é difícil mulher ganhar Oscar por melhor filme e melhor direção nos Estados Unidos, e dedicá-los aos "rapazes e moças militares", quase ou até mais duro é mulher fazer humor. Principalmente sendo bonita, bem bonita mesmo. Só me ocorre, no momento, a Tina Fey. Aqui no Reino Unido, neca, ninguém.

 

Pamela era e ainda é uma mulher das mais interessantes, pelo que vejo nas fotos e constatei num programa sobre sexo ("Shrink Rap") que rondou e sumiu no agitado turbilhão da televisão local. Além do mais, Pamela é "boazuda" como dizem ou diziam os "porcos chauvinistas" de antanho.

 

Duas curiosidades ocorrem na década de 90. Primeiro, Pamela casa-se com o comediante menos engraçado do mundo, o excessivamente escocês (sempre um mistake) Billy Connolly, com quem, presumo, vive muito feliz da vida até hoje. Segundo, ela garante um doutorado em psicologia clínica no prestigioso Instituto da Califórnia e passa a se dedicar exclusivamente aos aspectos sexuais de sua graduação. Em suma, Pamela Stephenson não é uma simples conselheira sentimental. É uma ousada conselheira sexual. Danada de séria. Imperdível, pelo menos para mim, que tenho um senso de humor vesgo e todo torto.

 

Aquele exemplo que dei na abertura destas linhas. É o que dá mais hits, page impressions, Ibope, chamem do que quiserem. Há um vasto número de gente neste mundo, ou pelo menos pelas bandas de cá, que passou a se desentender na cama. Pamela tem um remédio invariável se não infalível: é para o casal sentar e discutir o assunto.

 

De cara, e de poltrona, vou logo ao âmago da questão: como "sentar"? É para "deitar" e discutir a questão. Vou mais longe: sem discussão, é para "deitar" e rolar. Só. Falando o mínimo possível. Grunham um pouco, se vier na natural. Faz muito mais sentido. Sentados, vão os dois acabar discutindo a conta do armazém ou em que colégio matricular o Juquinha no ano que vem.

 

Na semana passada, Pamela recorreu a outra poção mágica de sua caixinha de fada sexual antípoda-californiana. Explicou para uma dama com delicados problemas amorosos que "há muitas razões psicológicas que podem explicar a dificuldade masculina em chegar a uma ereção." Disse, ou escreveu isso, com cara de pau, se me perdoem uma impropriedade estilística.

 

Pamela aconselhou ainda, na mesma página, outra senhora (as mulheres andam mais sexualmente queixosas, a se julgar pela seção) a não se ficar muito no aspecto sexual quando ia para a cama com o parceiro. Que isso poderia "quebrar o encanto da situação". Como assim? É para ela tentar se lembrar dos quadros do programa de TV que Pamela estreou? Isso é mais erótico?

 

Dona Pamela Stephenson deve uma explicação a seus leitores: continuará, na moita, a fazer humor, só que agora à nossa custa?

 

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