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Manifesto "antifeminista" de funcionário do Google gera polêmica e resposta

Getty Images
A sede do Google em Mountain View, na Califórnia Imagem: Getty Images

do UOL, em São Paulo

07/08/2017 13h13

Um engenheiro do Google resolveu listar tudo o que vê de errado nas políticas de diversidade da empresa — e acabou gerando a maior polêmica no Vale do Silício.

O texto entitulado "Câmara de Ressonância do Google" ('Google's Echo Chamber', no original em inglês) viralizou neste sábado, dia 5, depois de ser publicado nas plataformas internas de funcionários da empresa. A ideia principal por trás das dez páginas é a de que o Google deveria valorizar mais a variedade de opiniões políticas entre seus funcionários do que o compromisso de ter uma boa distribuição de gêneros e etnias nas equipes.

Nas palavras do engenheiro, "segurança psicológica" para manifestar opiniões deveria ser a prioridade entre os esforços da companhia e não a diversidade. 

Para provar seu argumento, ele faz comparações e reforça ideias ultrapassadas sobre gênero. Em um trecho, diz que "homens têm maior desejo por status" e que mulheres são mais "abertas em relação a sentimentos do que ideias", o que explicaria porque mulheres "preferem trabalhos em áreas artísticas e sociais à programação".

O autor ainda "explica" também a falta de mulheres em posições de poder em um momento de mansplaining — expressão em inglês para o ato de um homem tentar ensinar algo sobre a realidade da mulher, que é desconhecida para ele naturalmente. O motivo que ele dá? Há poucas mulheres em altos cargos por elas serem mais neuróticas, com "altos níveis de ansiedade e baixa tolerância ao estresse".

De acordo com o texto, as políticas de incentivo às mulheres e outras minorias excluem os homens e criam um ambiente desigual e opressor. Ele ainda aponta que o gender gap [a discrepância entre o número de homens e de mulheres nos quadros do Google] não é necessariamente ruim e conclui "que discriminar apenas para aumentar a representatividade das mulheres na tecnologia é tão equivocado e tendencioso quanto exigir o aumento da representação feminina entre desabrigados, detentos, vítimas de mortes violentas ou no trabalho e entre aqueles que abandonaram a escola".

O conteúdo do manifesto foi muito criticado nas redes, mas também recebeu apoio. O site Motherboard ouviu de outro funcionário do Google: "O fato de que os colegas estão pedindo que ele seja demitido — em fóruns públicos — prova o argumento dele de que há uma reserva ideológica que quer silenciar opiniões discordantes. Por que não debatem o que ele disse? Porque é mais fácil pagar de bonzinho em uma rede social, dizer o quanto você está ofendido ou com raiva". 

Outros protestaram no Twitter: 

"Eu trabalho no Google. A resposta das pessoas ao documento aqui dentro varia de raiva e nojo à tristeza", escreveu Torrey Hoffman.

A discussão surge no momento em que o Google é investigado pelo Departamento do Trabalho do governo americano justamente por causa de uma acusação de desigualdade nos salários pagos a mulheres e homens que têm cargos semelhantes. Em entrevista ao jornal britânico "The Guardian" em abril, a procuradora Janet Herold disse que a investigação não estava completa, mas que "a esta altura o departamento já havia recebido provas claras de que havia discriminação significativa contra as mulheres nos cargos mais comuns dentro do Google".

Danielle Brown, Vice-Presidente de Diversidade contratada em junho, escreveu uma carta aos funcionários sobre o assunto neste domingo, em que defendeu as políticas de inclusão de minorias dentro da empresa. Leia na íntegra:

"Googlers,

Sou a Danielle, nova VP de Diversidade, Integridade e Administração do Google. Eu comecei aqui algumas semanas atrás e esperava ter mais uma semana para pegar o jeito antes de me apresentar a todos vocês. Mas dado o debate intenso que vimos nos últimos dias, me senti obrigada a dizer algumas coisas. 

Muitos de vocês leram um documento interno compartilhado por alguém em nosso departamento de engenharia, expressando ideias sobre as habilidades naturais e características de gêneros diferentes, assim como questionando se alguém pode falar livremente sobre estes assuntos no Google. Como muitos de vocês, eu achei que [o texto] reforçou suposições incorretas sobre gênero. Eu não vou linká-lo aqui porque não é um ponto de vista que eu ou a companhia aprovamos, promovemos ou encorajamos. 

Diversidade e inclusão são partes fundamentais dos nossos valores e da cultura que continuamos a cultivar. Estamos firmes na nossa crença de que a diversidade e a inclusão são fundamentais para o nosso sucesso e nós continuaremos a nos posicionar e nos comprometer com isso no futuro. Como Ari Balogh [VP do Google] disse em seu post interno no G+, "construir um ambiente aberto e inclusivo está no cerne de quem somos e é a coisa certa a fazer". É isso.

O Google tomou posições fortes ao liberar seus dados demográficos e criar um grande sistema de metas, objetivos e resultados-chave no quesito diversidade e inclusão. Posições fortes provocam fortes reações. Mudar uma cultura é difícil e, frequentemente, desconfortável. Mas eu acredito, firmemente, que o Google está fazendo a coisa certa e é por isso que aceitei este trabalho. 

Parte de construir um ambiente aberto e inclusivo significa incentivar uma cultura em que aqueles com visões alternativas, incluindo diferentes opiniões políticas, se sintam seguros para compartilhar suas opiniões. Mas este discurso precisa funcionar lado a lado com os princípios de contratação igualitária encontrados em nosso Código de Conduta, políticas e normas anti-discriminatórias.

Estou nesta indústria há muito tempo e posso dizer a vocês que nunca trabalhei em uma empresa com tantas plataformas para os funcionários se e
xpressarem — TGIF, Memegen, G+ interno, milhares de grupos de discussão. Sei que esta conversa não termina com o meu e-mail de hoje. Estou ansiosa para continuar ouvindo as ideias de vocês enquanto me adapto e conheço os 'Googlers' pela empresa toda.

Obrigada,

Danielle".

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