Estilo de vida

'Vivi tanto preconceito, que já rejeitei ser negra', diz Miss Brasil

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Monalysa Alcântara, Miss Brasil Be Emotion 2017 Imagem: Divulgação

Daniela Carasco

Do UOL, em São Paulo

23/08/2017 04h00

Quando foi coroada Miss Brasil Be Emotion 2017, no sábado (19), a piauiense Monalysa Alcântara, 18, superou a si mesma. “Sempre tive medo de participar de concursos de beleza. Além da rejeição, tinha receio de ser tachada de fútil”, conta a menina que acaba de fazer história na premiação ao levar pela primeira vez o título ao seu Estado. “Agora, acredito que sou o retrato da mulher brasileira”, diz, enquanto saboreia uma rapadura.

De personalidade forte, recém-ingressa no curso de Administração e uma das organizadoras do grupo “Encontro das Viciadas em Cachos”, que debate o empoderamento de meninas negras em Teresina, Monalysa é muito mais do que seus 57 kg, 1,77 m de altura, 69 cm de cintura, 95 cm de quadril e 87 cm de busto. Apesar de as medidas terem contribuído para o seu avanço na disputa, seu posicionamento foi fundamental para a vitória.

“Minha superestratégia será ser eu mesma: uma mulher nordestina, que passou por diversas coisas, muitas dores, que me fizeram ser quem sou hoje”, disse surpreendendo os jurados.

“Sofri muito preconceito na infância”

Monalysa foi descoberta por seu “padrinho” na disputa, Elton Carvalho, pelas redes sociais, aos 15 anos. Na época, já trabalhava como modelo. Ela não quis participar do concurso, mas ele insistiu durante um ano e garantiu que hoje não se busca só uma menina bonita. “Eu queria dar mais voz às mulheres negras e não ser alguém inalcançável. E ele me perguntou, ‘acha que alguém vai te ouvir aí dentro da sua casa?’. Eu sabia que não seria fácil, mas eu precisava ser forte por outras mulheres que se sentem representadas por mim.”

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Monalysa Alcântara sendo coroada Miss Brasil Be Emotion 2017 Imagem: Divulgação
Aos 5 anos de idade, a vida confortável que levava com os pais e uma irmã mais nova foi abalada com a morte precoce do pai, um policial militar. A falta de amparo financeiro mudou a vida da família. “Perdemos nossa casa e ainda tive que me mudar para uma escola pública, onde estudei até a quinta série”, relembra. “Só voltei para a particular, quando minha mãe, que é supervisora de uma madeireira, conseguiu um trabalho bom.” Foi neste momento que a falta de representatividade começou a tocar profundamente a jovem miss. 

“Cheguei a alisar o cabelo”

No retorno a uma instituição privada, Monalysa se deparou com uma situação até então desconhecida: única negra da escola, virou alvo de ataques racistas. “Nunca vou me esquecer do dia em que estava numa roda de amigas e ouvi de uma delas: ‘Aqui não é lugar de negro, não. Sai daqui’”, conta. “Aquilo me feriu profundamente. Depois, ela chegou a dizer que era uma brincadeira, mas naquele momento descobri o que era ser tratada de forma diferente por conta do tom da minha pele. Nessa época, cheguei até a alisar o cabelo para me parecer mais com elas.”

O preconceito, assim como a ausência de mulheres negras em posição de destaque nos meios de comunicação, lhe renderam uma autonegação absoluta. “Já rejeitei ser negra. Essa palavra me machucava. Se eu não me reconhecia na TV, nas revistas, em lugar algum, então ser negro era ruim no Brasil. Por que me descreveria assim? Preferia ser ‘morena’.”

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Etapa final do Miss Brasil Be Emotion 2017 Imagem: Divulgação
Isso só mudou em 2009, quando Taís Araújo entrou no ar, na novela “Viver a Vida”, como mais uma Helena de Manoel Carlos. Para Monalysa, surgia ali a sua primeira referência de mulher inspiradora. “Ela era uma modelo de cabelo afro maravilhosa. Naquele momento, descobri que, sim, eu também poderia ser modelo. Assumi os meus cachos e defini que eles seriam a minha marca registrada no mundo da moda.”

“Ninguém aceita negro em posição de poder”

O caminho profissional percorrido até agora não foi fácil. “Muitas portas se fecharam pra mim”, conta. “Assim como na escola, sofri muito preconceito no trabalho. Antes de vencer o Miss Piauí 2017, a dona de uma loja de Teresina se recusou a me vestir. Disse que a minha cor não valorizava suas roupas.”

Nem mesmo a faixa e coroa de Miss Brasil calou os preconceituosos. Nas redes sociais, o que não faltam são comentários racistas para Monalyza. Ela não se abala. “Confesso que já me achei muito feia, mas hoje minha autoestima é altíssima. Olho no espelho e vejo uma menina feliz e bonita, em paz com o corpo e o cabelo.” E quem relaciona sua vitória a uma questão de cotas, ela rebate. “Fui escolhida porque fui a melhor da noite.”

Certa de que alçará voos ainda mais altos, a piauiense se diz confiante para disputar o Miss Universo. E quando o assunto é sonho, ela não titubeia: “Quero ser Angel da Victoria’s Secret”.

Reprodução Instagram
Monalysa e Emidio Fernandez, de 37 anos Imagem: Reprodução Instagram
“Meu namorado diz que nasci pra ser famosa”

O apoio familiar e dos amigos é o principal combustível de Monalyza. O namorado, o advogado Emidio Fernandez, 19 anos mais velho, é um de seus maiores incentivadores. “Antes, eu achava que ele era só babão, mas agora também acredito em mim.”

Os dois se conheceram em uma festa, há nove meses, por meio de amigos em comum. A diferença de idade, segundo ela, nunca incomodou. “Ele é um meninão. Acho que o que traz maturidade não é a idade, mas nossas escolhas e experiências. Ele me ajuda muito. Quando reclamou de algo, Emidio me lembra de tudo o que já conquistei. Não vou negar que ele já viveu muito mais coisas do que eu. Quando nasci, ele já morava fora, estava viajando o mundo. Mas quem nos conhece acha nossa relação muito legal. Somos um casal super shippado”, diz.

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