Estilo de vida

Mestra Joana: ela combate a violência contra a mulher com maracatu

Divulgação/ Pam Souza
Imagem: Divulgação/ Pam Souza

Helena Bertho

do UOL

04/09/2017 04h00

Nascida e crescida na comunidade carente do Bode, em Recife, Joana D'Arc Cavalcante, 38, não tinha consciência do impacto que sua atuação teria quando assumiu o grupo de maracatu Nação Encanto do Pina. "Fui indicada para isso pelos Orixás, pelos búzios, e, para mim, foi uma bênção, uma missão". Em 2008, ela se tornou a primeira mestra de uma nação de maracatu do Brasil e deu início ao grande movimento de mulheres no ritmo musical. 

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Joana tocando Xequerê Imagem: Divulgação
Mulher nasceu para rodar saia?

A Nação Encanto do Pina foi fundada em 1980, pela avó de Joana, Maria de Sônia. Apesar de fundar o grupo, ela não conduzia os tambores, uma tarefa que só podia ser executada por homens. E até tocar era só para homens. "Tinha essa crença, de que mulher nasceu para rodar saia, e não para tocar", conta Joana.

Ela mesma, que conviveu com o maracatu desde menina, não pode tocar até depois de adulta. "Eu sempre ajudei, dancei, bordei. Mas, tocar? Isso a gente só pode há uns 15 anos", lembra. 

Hoje, ela conta que percebe que isso é reflexo do machismo presente no cotidiano da comunidade. "A gente é criada para servir o homem. Aqui tem muita briga, muitas violências, muita dor. Você acha que para sobreviver, para ser mulher, você tem que depender de um homem", conta.

Quando pegaram nos instrumentos, o que as mulheres encontraram foram olhares de reprovação. "Quando a gente quebra um tabu, tem cara feia, não é? O ambiente não era acolhedor", mas ela e suas colegas ainda precisaram encarar isso por alguns anos.

Um grupo só de mulheres

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Imagem: Divulgação

Joana considera o maracatu essencial para sua formação. "A minha sorte, e de muitos jovens da comunidade, é o maracatu. Ele nos possibilitou viver outra realidade, conhecer a cultura, outros caminhos, que não sejam a violência e a droga". 

O maracatu, apesar de conhecido como uma manifestação cultural, está intimamente ligado ao Candomblé, e faz parte de seus ritos. Maria de Sônia era mãe de santo e foi seu filho de santo, o pai de Joana, quem assumiu a Nação depois dela. Até 2008, quando precisou se afastar por motivos religiosos. A escolha de seu substituto cabia aos Orixás, através dos búzios, e o que veio foi a surpresa: uma substituta. No início, Joana encontrou resistência, a mesma que encarou ao tocar.

Mas percebendo que aquele espaço não era das mulheres, tomou uma decisão: fundar um baque (grupo de maracatu) feminino. "A gente queria um local para ter o prazer de tocar juntas, um ambiente nosso". Ela, então, reuniu as meninas da Nação e fundou o Baque Mulher.

Aos domingos, o grupo ia ao centro de Recife para tocar e ter um momento de lazer. "Na medida que a gente começou, as meninas de outras nações passaram a querer ir. Eu entendi que elas precisavam desse momento de lazer. Elas queriam sair do Pina para conhecer outras coisas".

"A gente fica empoderada e empodera outras"

Foi nesse espaço que Joana passou a ter consciência do desrespeito que ela e as outras mulheres sofrem no dia a dia. "A gente tocava e vinha para o centro todo domingo. Isso foi nos fortalecendo. Com o passar do tempo, as meninas começaram a trazer relatos de abuso, de maus tratos dentro de casa, do pai, irmão, padrasto".

Assim, despertou a percepção de que era preciso encarar a violência contra a mulher e começou a trazer essa discussão para dentro do Baque Mulher, orientando e ajudando umas às outras a saírem das situações de abuso. "A gente fica empoderada e empodera outras meninas da comunidade".

Joana conta que a própria vida mudou. Ela passou a perceber as pequenas agressões do dia a dia e a encará-las, sem medo. "Mas não vou dizer que é fácil, porque não é".

Reprodução/ Baque Mulher
Encontro nacional do Baque Mulher em 2016 Imagem: Reprodução/ Baque Mulher
Mestra Joana ganhou o Brasil

Com a visibilidade no centro turístico de Recife, o trabalho de Mestra Joana começou a ganhar repercussão. "Tem várias mulheres que vem à procura do maracatu na época no carnaval, conhece o Baque Mulher, entende nossa força e com isso estamos em todo do Brasil". Ela dá oficinas em diversos estados e inspira grupos femininos ao redor do país.

Além da música e de desfilar na sexta-feira após o Carnaval, o grupo faz apresentações em diversas cidades e eventos e organiza campanhas feministas, como a última com cartazes que diziam: "Mulher toca tambor, sim! Aceita que dói menos", para combater o machismo dentro do próprio ambiente do maracatu.

"Essa problemática do machismo não é só nossa, é mundial. Ela está na comunidade, está em todas as comunidades, está na vida. E estamos todas juntas, na mesma luta".

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