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Como Adriana Barbosa virou uma das pessoas negras mais influentes do mundo

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Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta eleita uma das 51 pessoas negras mais influentes do mundo Imagem: Reprodução/ Facebook

Helena Bertho

Do UOL, em São Paulo

07/09/2017 12h21

Quando criou a Feira Preta em 2002, Adriana Barbosa, 40, não imaginava que a iniciativa a colocaria na lista das 51 pessoas negras mais influentes em cultura e mídia do mundo. O projeto era, na verdade, fruto da necessidade: "Eu fui demitida da gravadora onde trabalhava e comecei a fazer feiras de rua, vendendo roupas, aí surgiu essa ideia".

Uma ideia que acabou se transformando na maior feira afro da América Latina, dando visibilidade para a cultura negra e também para os empreendedores. "A gente mostra que, sim, existe um mercado e empreendedores. Ano que vem, completamos 130 anos da abolição da escravidão e empreender foi a forma que os negros encontraram para sobreviver. É a 'sevirologia'. E o maior legado da feira é esse, dar visibilidade para o quanto a população negra foi inventiva e criativa em um contexto de adversidade".

Patrocinadores não queriam ligar nome à Feira no começo

A iniciativa surgiu como ideia de negócio, a partir da percepção de que havia um mercado a ser conquistado. Frequentadora da Vila Madalena, em São Paulo, ela notava um grande movimento de festas negras por ali. "Tinha um enorme público de jovens negros, o DJ era negro, as hostess eram negras, mas os donos eram brancos. E eu pensava: como a gente consegue fazer circular dinheiro sendo produtores de um conteúdo cultural, mas no fim da noite a gente não está com esse dinheiro".

Com uma amiga, começou então a tentar fazer acontecer uma feira de empreendedores negros.

Não foi fácil no começo. "Eu tinha 22 anos, não sabia como nada funcionava. Tinha que ir nas empresas captar grana e falavam que não podiam patrocinar porque o nome ´Feira Preta´ estava ligado a uma questão de conflito racial ", conta.

Era difícil fazer os potenciais patrocinadores entenderem que o projeto era um negócio: mais da metade da população é negra e existia uma enorme capacidade de produção e consumo nisso. As marcas, porém, só viam o viés social do projeto. "Até hoje, não entendem a lógica do negócio, só o social. Claro que a feira é por si social, mas é um negócio".

"Todo mundo dançava, mas eu sempre com a vassourinha"

O racismo que encontrou nas empresas, foi parte da vida de Adriana desde cedo. "Fui educada pela minha mãe e minha vó. Minha vó veio do interior com 12 anos e trabalhou na casa de uma família por 60 anos. Eles ajudaram ela a comprar uma casa em região central, então na escola quase não tinha negros. E eu percebia a diferença. No bailinho da escola, todo mundo dançava, mas eu estava sempre com a vassoura".

Na adolescência, começou a tomar consciência de o tratamento que recebia era diferente. Passou a consumir filmes afro-americanos e a conhecer movimentos como as Panteras Negras, e isso tudo ajudou na formação da sua identidade. Logo, passou a participar do movimento negro de São Paulo, o que só aumentou sua percepção do racismo à sua volta. 

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Imagem: Reprodução/ Facebook

Público chegou a 15 mil pessoas

Então quando ficou desempregada, seu olhar logo tomou essa direção. E apesar das dificuldades para captar e entender os caminhos para fazer acontecer, elas conseguiram e no dia 24 de novembro de 2002 aconteceu a primeira Feira Preta na praça Benedito Calixto com 40 expositores e recebeu um público de cerca de 5 mil pessoas.

Nos anos seguintes, o evento foi crescendo. Uma das principais mudanças aconteceu em 2006, quando um abaixo-assinado dos frequentadores da praça pediu que a Feira saísse dali. Adriana e os apoiadores precisaram então correr atrás de um novo espaço e chegaram a vender vinho quente e quentão para conseguir pagar, parcelado, o aluguel do Anhembi.

Desde então, a Feira acontece lá e o público só cresceu chegando a 15 mil pessoas na última edição, segundo ela. O evento ganhou também uma edição carioca em 2016 e vai se transformar de novo este ano. Ao invés de centralizar, a lógica será ocupar.

"Vai ser em vários lugares, com festival de literatura em São Miguel, o Afropunk vai falar sobre seu modelo de festival no Google Campus, a feira em si, atividades culturais. Vai ter muita coisa acontecendo no mês de novembro", conta.

Para Adriana a feira se tornou uma referência do possível. "É possível a gente se enxergar de outra forma, não só pelo aspecto da vulnerabilidade". Mas ela reconhece que isso é mérito que vai muito além do seu trabalho e se deve a todo um movimento negro que só tem crescido.

Se preparando para jantar com Obama

O sucesso da Feira Preta não significou estabilidade para Adriana, porém. Como ela não dava dinheiro, em 2004 sua amiga precisou sair da parceria, pois era mãe e Adriana seguiu com o projeto contando com novos parceiros. Mesmo assim, voltou a trabalhar em empresas, para poder se sustentar, levando a feira como projeto paralelo. Somente em 2016 ela pode sair de seu último emprego como coordenadora de investimento social para se dedicar 100% a isso. 

Agora ela está se preparando para participar de um jantar com Barack Obama. Será no dia 27, na premiação dos afrodescendentes mais influentes no mundo. "Eu não estou acreditando até agora. Mas esse reconhecimento não é só meu, é de todo mundo que fez parte dessa história", celebra feliz.

Quando recebeu a notícia, Adriana comentou com uma amiga que não teria como ir para a premiação. "Daí eu fui tomar banho e quando voltei, tinham criado uma vaquinha e toda uma mobilização para eu ir para Nova York". A vaquinha já arrecadou R$ 7500 dos R$ 9 mil necessários para pagar sua viagem. "Eu estou muito impactada com essa mobilização. São pessoas que me ajudaram a construir a feira, é um público que gosta e agora fala: 'vai lá representar a gente". 

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