Estilo de vida

"A arte ainda discrimina as mulheres", diz fundadora do Guerrilla Girls

Andrew Hinderaker
Imagem: Andrew Hinderaker

Natacha Cortêz

Do UOL

10/09/2017 04h00

Não é exagero dizer que as Guerrilla Girls formam o mais combativo coletivo de mulheres na arte. Para o grupo norte-americano, que desde 1985 reivindica o lugar das mulheres no segmento, como criadoras ou sendo representadas nele, arte é instrumento político e reflete o mundo em que vivemos. “Mundo esse construído por homens brancos para homens brancos, e que é discriminatório com todo o resto”, diz Frida Kahlo, uma das fundadoras.

O codinome Frida é uma lembrança à famosa pintora mexicana. Há ainda Kathe Kollwitz (gravurista e escultora alemã, perseguida pelo nazismo), Rosalba Carriera (pintora italiana) e outras artistas homenageadas. Além dos nomes históricos, as Guerrilla Girls usam máscaras de gorilas e vivem no absoluto anonimato. “Somos um coletivo que trabalha como se fosse uma célula. E nunca dizemos exatamente quantas somos.”

Por meio de performances e cartazes de linguagem pop, as Guerrilla Girls criticam o patriarcado, o sexismo e a desigualdade racial que permeiam o universo da arte, afirmando que não apenas existe muita discriminação, mas que o corpo feminino, especialmente quando nu, tem sido explorado e objetificado ao longo da história da arte ocidental. Para Frida, é preciso “minar a ideia de uma narrativa dominante para revelar a sub-história, a injustiça descarada”.

Guerrilla Girls
Imagem: Guerrilla Girls

Retrospectiva no MASP

No Brasil, o coletivo realiza sua primeira individual no MASP, na capital paulista, a partir do dia 28. Serão mais de cem cartazes icônicos, além de uma performance, no dia 29, com quatro das integrantes. “É o mais antigo grupo de arte feminista em atividade. E elas seguem atentas às mesmas questões, que infelizmente continuam atuais, causando efervescência por onde passam. Os questionamentos que fazem, de gênero, racismo aos sistemas políticos, como fazem com Trump nos Estados Unidos, nos interessam. Nos interessa também que observem nosso acervo e nos ajudem numa autocrítica. Esta gestão do MASP se preocupa com a diversidade”, comenta Camila Bechelany, curadora-assistente do museu.

O UOL conversou por e-mail com Frida:

UOL: Pensando na trajetória das Guerrilla Girls, desde a criação do grupo, algo mudou na arte e na representação de mulheres em museus e galerias?
Desde que começamos a reclamar, as coisas melhoraram, mas de um jeito muito tímido, para as mulheres e os artistas de cor -- e aqui falamos de negros, mas também dos asiáticos e dos indígenas, dos latinos e de todos que não estão sob o guarda-chuva caucasiano. Há 30 anos, o número de mulheres e artistas de cor nas galerias e museus eram incrivelmente baixos. Nem 2%! Hoje, tem gente consciente trabalhando pela diversidade das coleções de arte. O MASP, por exemplo, tenta essa mudança. Mas não dá para ser exatamente otimista: a maioria das oportunidades e a maior parte do dinheiro no universo da arte ainda vão para os homens brancos. E é importante dizer: existe um outro problema, que se desenvolveu paralelamente à qualquer melhoria. É quando escolhem uma mulher ou artista de cor para uma exposição e pensam que todo o problema da exclusão foi resolvido.

Guerrilla Girls/ Lois Greenfield
Imagem: Guerrilla Girls/ Lois Greenfield

UOL: Artistas mulheres já foram menos de 5% nas seções de arte moderna. E, quando representadas, em 85% das vezes estavam nuas. E agora, quais são os números?
Nosso cartaz de 89, "As mulheres têm que estar nuas para entrar no Met", mostrou que nos museus as mulheres são mais propensas a ser objetos sexualizados do que criadoras. Nossa última contagem, feita em 2012, apontou que havia menos ainda mulheres artistas no Metropolitan Museum of Art (em Nova York), só 3%. Porém, mais homens nus, 24%. Devemos chamar isso de progresso?

UOL: Qual é a missão de agora do coletivo? A mais quente.
A de falar com um público mais amplo do que aquele que já conhece as pautas feministas. Atingir quem nunca pensou sobre o assunto -- e nisso, certamente, a linguagem pop dos cartazes e o uso de estatísticas ajudam. Daqui a cem anos, se tudo o que os museus tiverem for o que os bilionários doaram para eles, isso não vai ser realmente uma história da arte. Mas uma história dos mesmos poucos artistas, financiados pelos mesmos poucos bilionários. É a história da riqueza e do poder. Por isso a gente insiste que as instituições devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para colocar em exposição uma variedade muito maior de artistas, e colecionar a história inteira da cultura, não uma pequena parte dela.

Guerrilla Girls no MASP, de 29 de setembro a 14 de fevereiro de 2018, no Mezanino do 1º subsolo.

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