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Vítima de feminicídio era alegre, trabalhadora e reclamava do ciúme do ex

Reprodução/Facebook
Lais Andrade foi assassina pelo ex-companheiro dentro de uma viatura policial Imagem: Reprodução/Facebook

Amanda Serra*

do UOL, em São Paulo

10/10/2017 13h54

Laís Andrade, 30, descobriu que seu ex-namorado Valdeir Ribeiro de Jesus havia instalado uma câmera em seu banheiro e decidiu buscar ajuda da polícia. No entanto, ao fazer a denúncia, ela e o homem foram conduzidos na mesma viatura até a delegacia da cidade vizinha. Dentro do veículo, a jovem foi atingida com uma facada no pescoço.

Ao UOL, a tia da vítima Eurami Andrade, 57, contou que a família não havia presenciado ou sabia de qualquer histórico de violência no relacionamento de três anos do casal. "Temos algumas suspeitas em relação a ele, de que não aceitava o fim do relacionamento. Só agora as pessoas comentam sobre alguns defeitos. Mas nunca desconfiei de nada, ele era calmo, caladão, tratava muito bem a minha mãe (avó da vítima). Era até tímido."

Sobre as circunstâncias da morte da mineira, a tia afirma que se tratou de "falta de preparo" da polícia, que foi "pega de surpresa" pela reação do criminoso, pois não interpretou o fato de ele ter filmado a própria namorada como uma violência. Segundo Eurami, os dois foram cochilando no carro, cada um para um lado durante o percurso de Pavão (MG) até Teófilo Otoni, cerca de 100 km de distância. 

"O erro do Valdeir foi grave, mas o maior erro foi da polícia. Como você pega um cara que é bandido, porque filmar uma pessoa é crime, e coloca no mesmo carro e não revista? Só pelo fato de ele ter gravado a namorada e o filho dela no banheiro já era para desconfiar. Como não tinha histórico de agressão física, os policiais não interpretaram como violência."

A tia conta ainda que o crime ocorreu por volta das 13h30 do último sábado (7), mas sua família só ficou sabendo no fim da tarde, às 17h30. "Um sobrinho ouviu um boato, avisou a mãe e ela pediu ajuda para um amigo policial para localizar a Laís. Foi aí que descobriram".

Na semana em que foi morta, a mineira ouviu uma "revelação" do pastor de sua igreja, a Assembleia de Deus - "Tem uma irmã aqui que não vai ficar muito tempo com a gente". "A mensagem não foi direcionada para ninguém, apenas dita em voz alta durante o culto. Na ocasião, ela chorou muito", lembra a tia.

Carinhosa e meiga

Há cerca de um ano e meio, Laís acumulava a função de auxiliar de limpeza e recepcionista em uma pousada na cidade e trabalhava das 8h30 às 11h e das 17h às 22h. "A vida dela era trabalho casa, casa trabalho. Não tinha tempo de sair, só ia para igreja", conta um amigo próximo, que pediu para não ser identificado.

Ainda de acordo com ele, a jovem já havia comentado sobre o ciúme excessivo do ex. "Ela era uma pessoa brincalhona, alegre, sempre disposta a ajudar. E ele não gostava que a Laís conversasse com os hóspedes e com os colegas próximos. Ela chegou a comentar isso por alto algumas vezes. Mas ele mesmo nunca falou nada, nunca brigaram em público. Era uma pessoa divertida e até tranquilo demais, nunca demonstrou ser agressivo".

Laís conheceu Valdeir em seu antigo emprego, em um supermercado que pertence ao mesmo dono da pousada. O término do casal era recente, cerca de duas semanas. Além do filho de 8 anos, a jovem assassinada deixou os pais que trabalham na produção de queijos, geleias e leite em um sítio na região rural de Pavão, além de duas irmãs e um irmão, que mora em Belo Horizonte. 

Em sua página no Facebook, a irmã da recepcionista, Luciene Andrade lembrou do dia em que conversaram por telefone pela última vez e prometeu Justiça. “Te liguei Laís, você me pediu oração e por mais que perguntasse o que estava acontecendo, você continuava a me pedir para orar e para te esperar que logo chegaria em Teófilo Otoni. Orei e te esperei, mas a sua vida foi interrompida, te tiraram de nós, do seu filho que tanto amava, de sua família que te ama e que você tanto amou e se dedicou. Obrigada pelo último abraço tão aconchegante, em que disse: ‘te amo tanto minha Luluzinha, minha irmã intercessora’. Essas palavras neste momento, juntamente com a fé que tenho em Deus, estão sendo consolo e bálsamo para a minha alma".

"Lutarei com todas as minhas forças, com orações e fé para que a justiça de Deus e a daqui da terra sejam feita. Lutarei pelo seu filho, para zelar e cuidar com todo amor que você o dedicou, mesmo sabendo ser impossível substituí-la. Sei que não é uma despedida para sempre, sei que um dia todos nós nos encontraremos com Deus para vivermos na vida eterna", finaliza ela. 

Responsabilidade do Estado

Para promotora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e ativista das causas femininas, Gabriela Manssur, o problema não é só da polícia. “É todo um sistema. Desde a banalização da violência – ‘ah, isso não é nada’ -, até a falta de investimento no município. Muitos não têm nada, nem o básico. Pelo menos uma rede de proteção. A questão da mulher nunca é prioridade”.

Valdeir é conhecido na cidade e morava com a mãe. Trabalhava entregando gás e água na casa dos habitantes de Pavão (com quase nove mil habitantes). O filho da vítima é fruto de outro relacionamento e o pai do garoto mora em Portugal, de onde a própria Laís voltou há seis anos. Ele deve vir ao Brasil em dezembro. Tanto as famílias do pai quanto da jovem tentam agora decidir, em comum acordo, quem cuidará da criança. Por enquanto, ele está com um tio paterno.

"Minha sobrinha era uma pessoa apaziguadora, muito família, apegada ao pai, a avó. Fazia de tudo para agradar, nunca gritava. Mãe e filha exemplar, honesta, trabalhadora, meiga, carinhosa. Tudo isso que aconteceu é horroroso. Está todo mundo muito abalado, o filho dela escreveu uma carta de despedida, olhou para mim e disse 'titia, estou muito triste, muito...'", lamenta Eurami sem conseguir conter o choro.

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Entenda o caso

Laís descobriu uma câmera na janela de seu banheiro e ficou preocupada que suas imagens e do filho fossem divulgadas. Por isso, decidiu procurar a polícia de sua cidade. O homem admitiu ter instalado a câmera no local da ex-companheira. Mas, como era fim de semana, os depoimentos deveriam ser colhidos na delegacia regional de Teófilo Otoni.

Segundo o delegado da Polícia Civil, Eduardo Gil, o homem teria pedido para buscar um documento em casa antes de entrar no veículo e os policiais permitiram. Foi quando ele aproveitou a oportunidade para pegar uma faca e esconder no tênis. "Quando ele entrou na viatura, já antevia o resultado, que era a prática do feminicídio", disse o delegado.

Os dois policiais militares que atenderam à ocorrência envolvendo Laís foram autuados por homicídio culposo pela corporação. De acordo com o 19º Batalhão da Polícia Militar, eles descumpriram uma norma interna da corporação ao não revistarem novamente o suspeito antes que ele entrasse novamente na viatura.

No caminho entre as cidades, tanto a vítima quanto o agressor foram no mesmo banco do carro, contrariando os protocolos de atendimento policial. Já perto do destino, o homem pegou a faca e atingiu Laís no pescoço, tentando fugir em seguida. Ela morreu no local, mas Valdeir sobreviveu e está preso.

*Colaborou Mariana Araújo.

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