Estilo de vida

Elas reformam a própria casa e provam que lugar de mulher também é na obra

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

26/10/2017 04h00

Na periferia de Belo Horizonte (MG), as mulheres têm destaque especial na construção civil. Cely Cristina Silva, 42, moradora da ocupação Eliana Silva, é uma delas. Auxiliar administrativa, divorciada e mãe de um menino de 11 anos, ela aproveita as horas vagas para trocar torneira, assentar piso, mexer na fiação elétrica e rebocar as paredes da casa. Essas habilidades foram adquiridas há poucos meses, quando entrou para o projeto “Arquitetura na Periferia”.

Liderada pela arquiteta Carina Guedes, 32, a iniciativa nasceu em 2013 e foi ganhando corpo à medida que ela identificava os gargalos de conhecimento sobre arquitetura e construção civil nas regiões periféricas da capital mineira. “São os lugares onde mais se constrói no Brasil, mas não há nenhuma assessoria técnica para ajudá-los”, disse ao UOL.

Recém-ingressa em um mestrado da Universidade Federal de Belo Horizonte e decidida a seguir um caminho distinto ao dos colegas da área, Carina abriu mão de trabalhar em escritórios do centro, voltado a clientes mais abastados financeiramente, para ajudar mulheres de baixa renda a botarem a mão na massa em seus lares.

Até agora, ela já capacitou 17 moradoras de duas ocupações --Dandara e Eliana Silva-- e deu grandes provas de que “lugar de mulher também é na obra”.

Do planejamento à construção, elas fazem tudo!

Na prática, o projeto acontece com a capacitação de pequenos grupos de três a cinco participantes. No geral, são mães, com uma média de três filhos, e trabalhadoras autônomas --faxineiras, manicures e revendedoras. Durante seis meses, elas se reúnem em encontros semanais, onde aprendem o passo a passo completo para reformar e construir. São oferecidas oficinas de desenho, orçamento, levantamento de material, planejamento de obra, demolição, construção, reboco, alvenaria, acabamento, hidráulica e elétrica. A etapa seguinte é colocar tudo em prática onde moram, sempre em grupo.

“Elas chegam se achando incapazes, mas acabam percebendo que dão conta de tudo”, orgulha-se Carina, que faz visitas esporádicas para acompanhar a evolução dos trabalhos. “A princípio, acham que bastar bater uma laje e saber virar massa para aumentar os espaços. À medida que vão passando pelos treinamentos, descobrem a importância de uma janela bem colocada, de um banheiro projetado, da instalação elétrica de qualidade, ventilação, iluminação e, claro, do conforto.”

O poder da autonomia e da ocupação do próprio espaço

Carina evita a palavra empoderamento, por notar uma certa banalização do termo. Para ela, o que está em jogo é a independência de cada uma. “Elas saem certas de que são capazes de fazer tudo o que precisam e desejam. A maioria ficava muito na mão dos companheiros, que nem sempre executavam da maneira como queriam.”

Até então elas se restringiam apenas à manutenção dos cuidados domésticos. Agora, participam de todas as etapas que envolvam o lar. Elas se percebem donas daquele espaço. E o resultado da confiança adquirida no curso se estende à autoestima. “Muitas decidem assumir o cabelo crespo, mudam a maneira como se relacionam com os outros, transformam até o jeito de se vestir”, diz a arquiteta.

São mulheres guerreiras!

Para conseguir executar as obras, elas usam como empréstimo a verba paga pelo grupo anterior. O valor é mais um incentivo, não passa de R$ 1.500 para cada uma. “Mas é impressionante como conseguem promover muitas melhorias coletivas com esse dinheiro. Elas impactam muitas famílias, atuam em várias casas. E trabalham muito bem juntas.” Agora, uma campanha de financiamento coletivo pretende arrecadar mais fundos para fazer o projeto crescer.

Apesar de alguns maridos apoiarem a decisão das companheiras, outros tentam convencê-las a desistir. As justificativas variam entre “você não precisa disso” e “posso fazer tudo o que for preciso, basta pedir”. Por isso, o próximo passo de Carina é atrair para o projeto profissionais de outras áreas, como psicólogos e assistentes sociais, que contribuam para incluir os homens em algum momento do processo.

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