Estilo de vida

"O mundo não está chato, está mais complexo"

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Será mesmo que vivemos na era do tão falado 'mimimi'? Imagem: Getty Images

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

07/11/2017 04h00

Basta uma navegada rápida pelas redes sociais para encontrar o comentário: "o mundo está muito chato". Será mesmo que vivemos na era do tão falado “mimimi”? Tatiana Mareto Silva, professora de Direito do Centro Universitário São Camilo (ES), garante que não. Doutoranda em Direitos e Garantias Fundamentais e pesquisadora na área de gênero e diversidade, ela afirma que, na verdade, "o mundo está apenas mais complexo". Em entrevista ao UOL, ela explica ainda como essa realidade precisa ser transformada, alerta para a importância de uma readequação de discursos e conta por que a empatia pode ser um importante catalisador de mudanças. 

Para Tatiana, não há mais espaço para a chacota e o bullying cometidos contra minorias –mulheres, negros, gays, transsexuais, indígenas, gordos... "Eles sempre foram silenciados, sofreram calados. Agora, com a evolução e reconhecimento de seus direitos, decidiram se manifestar e exigir mudanças”, diz

Arquivo pessoal
Tatiana Mareto Silva, professora de Direito e pesquisadora na área de gênero e diversidade Imagem: Arquivo pessoal
Muito além da piada

Quando o assunto vem à tona, é comum relacioná-lo a piadas que fogem do tão comentado politicamente correto. Mas a verdade é que ele vai muito além de comentários jocosos. A recente reação contrária à campanha do papel higiênico preto lançado pela marca Personal, que convocou a atriz Marina Ruy Barbosa como garota-propaganda, colocou à prova essa questão.

A expressão “Black Is Beautiful” (preto é bonito) alçada a slogan surgiu nos anos 1960 como grito de resistência do movimento que combatia e denunciava o racismo nos Estados Unidos. Portanto, ao ter o seu sentido original esvaziado na propaganda, gerou polêmica e com razão, diz Tatiana.

“Existe um grupo que continua achando que é possível se apropriar tranquilamente de discursos que são lutas históricas da minoria e que reforçam o padrão majoritário masculino, branco e hétero”, diz ela. “Qualquer discurso que tente reduzir grupos minoritários a pessoas pouco qualificadas, incapazes e menos relevantes socialmente não é mais aceitável.”

Não é mais aceito:

  • Fazer piadas de cunho racista ou homofóbico, por mais que não haja a intenção de ofender
  • Rejeitar a diversidade
  • Desqualificar a capacidade de negros, indígenas, gays, trans, mulheres, gordos
  • Sacanear a pessoa pelo que ela não escolheu ser
  • Pedir calma diante de abusos. Apenas não os faça!
  • Defender como elogio uma cantada agressiva e indesejada
  • Usar o adjetivo "negro" como sinônimo de algo negativo
  • Usar “gordo” como xingamento
  • Apropriar-se dos discursos das minorias para esvaziar o seu valor e/ou menosprezá-los

Então, o que vale?

Para Tatiane, vale desconstruir preconceitos e estereótipos para se adaptar aos novos tempos e retomar valores coletivos. “Faz parte da cultura estabelecida uma naturalização de determinadas discriminações”, fala a especialista, que confessa ter também repensado muitas de suas atitudes ao longo dos anos.

“Por isso, precisamos trabalhar principalmente a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, e o altruísmo, ações voluntárias que beneficiem outros, para avançar. Até quem foi criado em uma família opressora pode e deve buscar a desconstrução. A educação tem um papel fundamental nesta mudança.”

A especialista chama atenção para a intolerância quanto aos direitos humanos implicada nesse cenário. “Eles foram conquistados ao longo de décadas com muita luta e sangue. Retroceder agora seria terrível.”

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