Entrevistas

Após um estupro coletivo, Roxane Gay quis engordar até ficar "indesejável"

Natacha Cortêz

Do UOL, em São Paulo

30/11/2017 04h00

262 kg - esse foi o peso máximo que Roxane Gay, com 1,90 metro de altura, encarou em uma balança. E ela chegou na marca “de forma obstinada”. “Comecei a comer para mudar meu corpo, queria que ele se tornasse repulsivo, indesejável, queria construir uma fortaleza”, escreveu em “FOME - Uma autobiografia do (meu) corpo” (ed. Globo Livros). Mas por que alguém desejaria alcançar tal feito? O que Roxane ganharia com isso? “Nunca mais ter os olhares, nem a atenção, dos homens. A vontade era poder manter os homens à distância. Não queria que nada nem ninguém me tocasse.”

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Roxane é um dos nomes mais importantes do feminismo contemporâneo Imagem: Divulgação

Comer compulsivamente até se tornar “uma obesa mórbida” foi o que ela, então com 12 anos, fez para se proteger após um trauma. “Minha vida se divide em duas: antes de engordar, depois de engordar. Antes de ser estuprada, depois de ser estuprada.” Na época, um menino de quem Roxane gostava a levou para uma casa em uma floresta, e junto com outros garotos, a violentou sexualmente. Não foi apenas estupro, foi estupro coletivo. Por causa da culpa que sentia, Roxane guardou o crime em segredo por mais de 30 anos.

Hoje, aos 43 anos e cerca de 70 kg a menos - que perdeu apenas em nome da saúde, é importante dizer. Roxane tem sido uma ativista aguerrida contra a gordofobia - ela é um dos nomes mais importantes do feminismo contemporâneo e uma autora best-seller no mundo todo. Seu livro “Má Feminista” (ed. Novo Século), lançado em 2014, se tornou referência de empoderamento entre garotas. A norte-americana ainda é colunista nos jornais The New York Times e The Guardian e é famosa por seus comentários no Twitter.

Por e-mail, ela respondeu sobre o processo de escrever seu mais novo livro, indústria da beleza, gordofobia e feminismo.

UOL: Em “Fome”, você escancara memórias e traumas. Como foi voltar a essas partes da sua história?
Roxane: Definitivamente foi doloroso. Mas houve ainda benefícios nesse processo. Ao analisar meu passado, minha vida e meu corpo, percebi que, independentemente das falhas que tenho, estou fazendo o melhor que posso, e quando posso, por mim. Não sei se qualquer um de nós tem controle das nossas próprias narrativas, mas escrever esse livro me permitiu reivindicar a minha. Me possibilitou desafiar as suposições que as pessoas tendem a fazer sobre mim e sobre corpos como o meu.

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A relação entre realização e magreza é propagada há bastante tempo - indústrias inteiras se beneficiam disso. Como podemos mudar essa premissa; aliás, deveríamos? Primeiro, claro que sim. Ou sempre teremos o privilégio da satisfação ao lado da magreza. Depois, não faço ideia de como mudar de fato isso. Mas sugiro que devemos começar a criar culturas que sejam mais  tolerantes, ao menos, a qualquer tipo de corpo.

Você acredita, por exemplo, que movimentos sociais que pregam imagens positivas de diferentes corpos ajudam nesse processo? Não tenho dúvida. Eles alcançam muita gente. No mais: qualquer movimento que tente fazer com que mulheres, negros, gordos, LBTQIs e outros grupos se amem para além da opinião alheia está realizando algo extremamente necessário para este mundo. 

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Capa de "FOME" Imagem: Divulgação

O que você diria para as mulheres que sofreram processos parecidos com o teu, falando do estupro, mas ainda da gordofobia? Se abram e conversem com alguém que você confie. Em ambos os casos, no abuso sexual ou na gordofobia, a culpa não é sua. Aliás, digo isso para mim mesma há muitos anos.

Muitas feministas relatam que entre suas maiores dificuldades ainda está a de deixar de fazer dietas para emagrecer. Por que conseguimos lutar por direitos, como a descriminalização do aborto, mas ainda não conseguimos amar verdadeiramente o próprio corpo sem insistir em “consertá-lo”? Essa é uma questão de mulheres, em primeiro lugar. É bom lembrar disso. Depois, não conseguimos porque nos deram a tarefa de buscar eternamente a afirmação de nossas identidades através de uma estética magra. Precisamos definitivamente nos distanciar de perseguir esse padrão, parar de tratar a magreza como ideal e a gordura como um problema. Nossa força e autoestima não podem ser definidas por padrões impostos a nós. Quem deve decidir sobre elas somos nós. Essa é a nova busca.

Nos últimos anos, o feminismo tem sido incorporado à cultura pop - em séries, no cinema, na música, até na publicidade. Para você, isso é um avanço? É avanço quando a causa não é usada apenas para vender um produto sem considerar as necessidades e preocupações das diferentes mulheres que existem. Passou da hora das pessoas entenderem que as mulheres podem até compartilhar uma identidade de gênero, mas percorrem o mundo e são afetadas de maneiras diferentes por conta de fatores como raça, classe, sexualidade, geografia e habilidades, por exemplo.

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