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Nem toda mãe é boa: entenda o transtorno de personalidade narcisista

Getty Images
"Mães são aquelas que tiveram filhos. O que elas já são ?más, violentas? aparece na maternidade", diz a psicanalista Vera Iaconelli Imagem: Getty Images

Adriana Nogueira

Do UOL

30/11/2017 04h00

Páginas na internet e no Facebook têm se proposto a acolher, como uma comunidade de apoio, mulheres que se dizem vítimas de “mães narcisistas”. Sob essa denominação, abrigam-se filhas alvo de maus tratos, físicos e emocionais, praticados por aquelas que se esperava fossem suas guardiãs.

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"Tudo era motivo para eu ser agredida, desde um arroz que não tinha ficado bom. Ouvia: ‘Não sabe fazer nada direito’. Às vezes, ela passava por mim no corredor de casa e me dava um tapa, sem nenhuma razão. Mesmo no verão, tinha de usar roupas de frio, para esconder os hematomas. Vivia em cativeiro. Era de casa para a escola e vice-versa.”, fala a professora A.*, 34, criadora da página no Facebook “Mães Narcisistas”.

Segundo a psicóloga clínica Silvia Rawicz, por trás dessas mães, está o transtorno de personalidade narcisista, descrito no "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", da Associação Americana de Psiquiatria.

Embora as páginas na internet se refiram a “mães narcisistas”, o transtorno pode atingir homens e mulheres, independentemente de serem pais e mães. Porém, é mais comum entre mães e filhas. “A imagem é muito importante para um narcisista. Como ambas são mulheres, a mãe vê a filha como uma extensão de si mesma, sem direito a vida própria”, explica Michele Engelke,  terapeuta cognitivo-comportamental e autora do único livro em português sobre filhas de mães narcisistas ("Prisioneiras do Espelho")

Falta de empatia

O documento da Associação Americana de Psiquiatria lista nove traços do comportamento do narcisista patológico, mas, ao apresentar cinco deles, a pessoa já é diagnosticada com o problema.

“Uma das características é pouca ou falta de empatia. Basta apenas essa para criar sérios problemas para qualquer um que se relacione com o narcisista”, afirma Silvia.

Ainda de acordo com o manual, outros traços do comportamento são: acreditar ser especial e único, sentir inveja das pessoas ou pensar ser alvo de inveja frequentemente e exigir ser constantemente admirado, entre outros.

Transtornos associados

“Minha mãe sempre foi muito abusiva e agressiva comigo, desde a infância. Sentia muito medo dela, pavor. Mas ela só era assim comigo, não com as pessoas na rua. Isso sempre me deixou confusa", conta L*, que prefere não revelar nem idade nem profissão, com medo de ser identificada pela mãe, com quem voltou a viver depois de ficar desempregada.

É dela outra página na internet dedicada a dar suporte a mulheres que teriam sofrido nas mãos de mães narcisistas, a “De Filha para Filha - Conhecendo a Mãe Narcisista”.

O “teriam sofrido” do trecho acima é porque se trata da visão das filhas sobre essas mães, e não necessariamente essas progenitoras tenham o transtorno de personalidade narcisista ou tenham apenas ele (é comum que outros estejam associados, como bipolaridade).

Há apenas mães ruins

“Nem todo mundo que comete abusos, físicos ou emocionais, é narcisista patológico. Pode ser apenas uma pessoa má. Mas todo narcisista patológico comete abusos”, declara o psiquiatra Erlei Sassi, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Personalidade e Impulso do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

Para Michele, pode até ser que nem todas as mães das mulheres que se reúnem nesses grupos na internet tenham o transtorno de personalidade narcisista, mas o benefício desses espaços é inegável.

"O benefício é enxergar que algumas mães podem ser uma influência tóxica na vida dos filhos. Questionar essa crença de que todas amam seus filhos", fala a especialista.

Medo de julgamento

L. diz que muitas das mulheres que compartilham os episódios de abuso que sofreram das mães, em sua página, temem julgamento: como você pode dizer isso da sua mãe?”, por exemplo. Outras não conseguem nem admitir para si mesmas que as mães são capazes de maltratá-las de propósito. “O julgamento e o preconceito apavoram, calam e oprimem”, diz ela.

Erlei Sassi, do IPq, afirma que essas filhas costumam ser tão fundidas com essas mães que é um avanço quando elas percebem que o problema não está nelas e, sim, nas progenitoras.

A psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP, reconhece o tabu que cerca a maternidade. “Há muita idealização. Mães são aquelas que tiveram filhos. O que elas já são –más, violentas– aparece na maternidade.”

Silvia Rawicz e Michele Engelke afirmam que, embora uma mãe narcisista possa abusar de filhos e filhas, é mais comum que as meninas sofram mais sob sua influência.
 

Tratamento

Segundo o psiquiatra Erlei Sassi, a psicoterapia é a forma de tratar o transtorno de personalidade narcisista. “O entrave, no entanto, é o narcisista aceitar que tem algo a ser tratado.”

Já Silvia e Michele duvidam da eficácia do tratamento. “É muito complicado falar em cura quando a pessoa tem muitos traços do transtorno”, afirma Silvia.

Michele diz que falta conhecimento sobre narcisismo para que se tenha uma forma eficiente para tratá-lo. “Faltam estudos consistentes.”

O caminho passa, então, por cuidar dos efeitos dessa relação ruim nos filhos. “Quem convive com o narcisista sofre de níveis altíssimos de estresse. O tratamento passa por reconstruir a autoestima da vítima. É a validação do sofrimento dela. Passa por ela saber que não está louca”, declara Silvia.

*Nomes omitidos a pedido das entrevistadas.

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