Flip

Libertária, Hilda Hilst publicou pornografia e não teve fama em vida

Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst
Imagem: Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst

Natacha Cortêz

Do UOL, em São Paulo

13/12/2017 04h00

Hilda Hilst será a terceira mulher homenageada em 16 edições de Flip, a Festa Literária de Paraty, que em 2018 deve acontecer de 25 a 29 de julho. Antes, Clarice Lispector, em 2005, e Ana Cristina Cesar, em 2016, foram as outras escritoras lembradas.

Marcada pela crítica como uma autora de escrita difícil, Hilda, que produziu poesia, prosa, teatro e crônica, não conheceu o sucesso comercial em vida. Aliás, ela mesma falava da ausência de popularidade de seus livros e, quando perguntada o que realmente queria, respondia afiada: “Um escritor deseja apenas ser lido”.

Na década de 90, chegou a lançar livros “pornográficos”, como fazia questão de dizer. “O Caderno Rosa de Lory Lamby” foi um deles. Porém, na época, nem a pornografia de Hilda foi êxito de vendas. “Assim como sua poesia, os textos eram vistos como difíceis”, explica Josélia Aguiar, curadora da Flip desde o ano passado. “Mas apenas dizer que Hilda era uma autora de escrita complexa não justifica o fato dela ser pouco conhecida até ontem”, continua.

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Apesar de atualmente ser considerada um dos grandes nomes da literatura brasileira e ter publicado três dezenas de livros, em vida, “Hilda simplesmente não era lida.”

Mas, se Hilda fosse um homem, teria alcançado sucesso antes de morrer? “Sim e não”, responde Josélia. “Para começar, poesia sempre foi gênero pouco comercial, e esse pode ser um entrave. Mas, provavelmente o fato de ser mulher dificultou ainda mais para ela. Assim como o fato de eu ser mulher também dificultou minha vida. Para o homem é mais fácil falar e ser ouvido. A mulher, além de ter que argumentar mais e melhor, precisa ainda que apareça um homem e a valide: agora sim, ela deve ser ouvida.”

Odiava ser chamada de “poetisa”

Para o herdeiro dos direitos autorais de Hilda, Daniel Fuentes, a autora provavelmente concordaria com Josélia. “Ela odiava ser chamada de poetisa, por exemplo”, conta. “Isso porque a palavra entregava à mulher um papel menor, doméstico, como um hobby entre lavar a louça e servir o marido. A seriedade estava na palavra poeta, e ela não tinha dúvidas em pegar para ela.”

Daniel é um dos responsáveis por trazer o nome de Hilda à tona nos últimos anos. Depois da morte da poeta, ele começa a tornar o Instituto Hilda Hilst, localizado na Casa do Sol, chácara onde Hilda viveu grande parte da vida, muito ativo na internet. Ao mesmo tempo em que Daniel investe esforços no Instituto, a obra de Hilda é relançada e passa a circular novamente. São ao menos dez novas montagens de peças teatrais por ano das obras de Hilda só na Casa do Sol. 

Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst
Hilst lançou seu primeiro livro de poesias, "Presságio", aos 20 anos Imagem: Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst

“Eu não diria que Hilda está sendo redescoberta, mas que está sendo descoberta por gente jovem, que não a conhecia. O que ocorre é uma descoberta pela juventude. E as redes sociais têm grande responsabilidade nisso”, diz a curadora da Flip.

Aqui, Josélia conta por que escolheu Hilda como próxima homenageada da festa literária, fala da importância da poeta para as mulheres de ontem e hoje e sugere por onde começar a ler sua obra.

UOL: Quem foi Hilda Hilst?
Josélia: 
Uma paulista de Jaú, que estudou Direito no Largo São Francisco. Teve como colega de faculdade, Lygia Fagundes Telles. Era filha de uma família de posses e tinha vida confortável como estudante em São Paulo. Fazia parte das rodas, se vestia muito bem com o Dener, um figurinista super conhecido. Aos 38, se deu conta de que para se dedicar à literatura, precisava ter uma vida diferente, com menos atividades sociais. É aí que ela se muda para a Casa do Sol, em Campinas. Hilda foi casada por um tempo com o escultor Dante Casarini, mas não teve filhos. Nos anos 90, decide ela mesma publicar seus livros. Apesar de viver longe da cidade, não era reclusa e recebia muitos amigos em sua casa. Aliás, existem histórias curiosas atribuídas a ela. Hilda contava que dormiu com o Marlon Brando, por exemplo.

Por que você a escolheu para ser a próxima homenageada da Flip?
Pensava que se acontecesse de fazer uma segunda Flip, queria que fosse uma autora mulher. E, como curadora, era mais desafiante fazer uma curadoria de uma autora menos canônica. Hilda ainda me pareceu ser uma pessoa que combinaria com Lima Barreto [homenageado em 2016]. Apesar de vidas totalmente opostas, eles tinham a mesma vibração. Em comum, os dois ultrapassaram o que era esperado deles em seus tempos. Ele era um um autor negro de baixa renda que foi ficando mais pobre e continuou escrevendo. Hilda foi uma moça rica, que sai da vida urbana pra morar num sítio e se dedicar totalmente à literatura. Era uma mulher extremamente livre e irreverente. Os dois são artistas transgressores. São ambas buscas pela liberdade, mesmo que em sentidos diferentes. Ela, como mulher. Ele, como negro.

Ela é uma mensagem de liberdade muito grande, de entrega à arte em detrimento de uma vida maternal e doméstica

O que Hilda representou para as mulheres do seu tempo; e para as mulheres de agora? 
Ela é uma mensagem de liberdade muito grande, de entrega à arte em detrimento de uma vida maternal e doméstica. Hilda era uma autodidata, lia muito sobre filosofia, física, tinha muita curiosidade com religiões do mundo. Foi uma mulher que se interessava muito pelo conhecimento. Hilda não tinha amarras. 

Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst/ Olga Bilenky
Hilda com o amigo Jose Luis Mora Fuentes Imagem: Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst/ Olga Bilenky

Para quem não conhece Hilda e quer começar a ler sua obra, por onde você sugere começar?
 
“Da Poesia”, um volume de poesia completa dela, que saiu pela Companhia das Letras. E, pela Globo Livros, tem o livro de entrevistas “Fico besta quando me entendem”.

O fato de Hilda ser mulher foi decisivo para sua escolha? Minha segunda Flip tinha que ser com uma mulher, então, de certa forma, sim. Era um compromisso comigo mesma. Veja: até pouco tempo atrás, havia um panteão de grandes autores brasileiros e todos eram homens. Nem Clarice aparecia na lista dos dez melhores, nem Lygia Fagundes Telles. Só se via Drummond, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos. Na Flip, Clarice Lispector foi homenageada em 2005 e Ana Cristina César apenas 11 anos depois.

E você enxerga mudanças nesse panteão? Aos poucos a mudança têm acontecido. E tem a ver com as novas gerações, que são mais abertas e pensam em inclusão e diversidade. Até 10 anos atrás, só mulher lia mulher. Homens estudavam autores homens e indicavam autores homens. O movimento #LeiaMulheres também tem sido fundamental no cenário de mudanças.

Tem a ver com os espaços de decisão também? Quando se tem uma mulher na curadoria da Flip, há mais chances de termos uma mulher homenageada? 
Nem sempre. Às vezes acontece de existir uma mulher num espaço de decisão e ela não estar atenta a isso. 

Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst
Na Casa do Sol, Hilst, às vezes com mais de uma dezena de cachorros, levou uma vida afastada dos círculos literários da capital paulista Imagem: Sala de Memória Casa do Sol - Acervo Instituto Hilda Hilst

Então existe uma preocupação sua de tornar a Flip mais inclusiva e trazer às mesas todo tipo de autor? 
Tive esse compromisso desde que entrei, no ano passado. Acho que é uma questão da gente passar a prestar atenção mesmo, prestar atenção nas pequenas editoras e nos autores que não aparecem. E ter o cuidado de não sair por aí repetindo que não existem autores negros ou que mulheres publicam menos, como a gente costumava fazer. Eles existem, publicam e tem mais dificuldade de fazer seus trabalhos circularem.

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Inglesa e brasileira na Flip dizem que é 'escrever ou morrer'

Ou eu escrevo ou eu morro?, afirma a brasileira Roberta Estrela D?Alva, ao lado da poeta, dramaturga e rapper inglesa Kate Tempest, que faz um gesto afirmativo e diz concordar. Dalva, atriz e diretora, é fã de Tempest. A inglesa, avessa a entrevistas, aceitou dar esta quando soube que a brasileira, que também admira, a acompanharia. A reportagem juntou as duas nesta sexta (1o) na Flip, em Paraty, para um bate-papo sobre poesia falada, presente na obra de ambas. Na abertura do evento literário, num sarau apresentado por D?Alva, a performance das duas, com seu ?spoken word? --ou a poesia falada-- hipnotizou o público. Tempest lança o romance ?Os Tijolos nas Paredes das Casas? (Casa da Palavra) e participa de mesa na Flip às 21h30 deste sábado (2) com o poeta Ramon Nunes Mello. D?Alva, membro fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, também é uma ?slammer? e pesquisadora, autora de ?Teatro Hip-Hop? (Perspectiva, 2014), que ordena a história da cultura hip-hop. Do livro, a definição de ?poetry slam?: ?uma competição de poesia falada, um espaço para livre expressão poética, uma ágora onde questões da atualidade são debatidas ou até mesmo mais uma forma de entretenimento?. Na entrevista, ela diz que a poesia falada vem da tradição oral: ?Somos como uma tribo de guerreiros sentados em volta do fogo, trocando histórias. Mas agora nosso microfone é o fogo?. Tempest e D?Alva conversam sobre esse espaço para livre expressão poética. A inglesa explica que sua "paixão e amor pela humanidade" a levam a ?tentar entender as coisas terríveis que somos capazes de fazer? e dar forma a esses questionamentos com sua obra. Em Paraty, o poema falado por ela tratava da conexão entre as pessoas. Leia a reportagem

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