Diversidade

Coletivos negros investigam fraudes em uso de cotas do vestibular da USP

Reprodução/Facebook
Campanha contra fraudes no sistema de cotas da USP, feita por coletivo do campus de Ribeirão Preto Imagem: Reprodução/Facebook

Chico Felitti

Do UOL

20/02/2018 04h00

Coletivos negros formados dentro da Universidade de São Paulo estão reunindo informações para denunciar possíveis fraudes no vestibular da maior universidade brasileira, que em 2018 reservou, pela primeira vez, vagas para um grupo que chamou de PPI: pretos, pardos e indígenas.

“São inúmeras as denúncias de fraudes nas cotas raciais, em que pessoas brancas têm se auto-declarado negras para roubarem nossas vagas na universidade”, escreveu o coletivo Negro USP Ribeirão Preto em entrevista ao UOL.

O grupo afirma ter acompanhado de perto a calourada do campus no interior, que oferece cursos como medicina e fisioterapia.“Já identificamos muitas potenciais fraudes no sistema de cotas e todos os dias recebemos várias denúncias.”

“O desafio agora é organizar esses dados para tomar medidas efetivas, mas as dificuldades são muitas.” Uma delas é que a lista de selecionados pela Fuvest não mostra quais aprovados foram enquadrados nas vagas reservadas para PPI.

O grupo de Ribeirão Preto ainda começou uma campanha nas redes sociais para colher assinaturas e pressionar a universidade a apurar suas denúncias, quando forem feitas. “Nós precisamos do apoio de todos para recolher o máximo de denúncias, para pressionar a USP a averiguar as possíveis fraudes nos seus sistemas de ingresso.”

Além das possíveis fraudes no uso do sistema de cotas, o coletivo afirma que houve um caso de racismo durante o trote. O grupo diz que um calouro de Medicina usou tinta preta sobre sua pele branca (prática conhecida como “blackface”) e desenhou em si um pênis negro gigante durante a comemoração com veteranos.

Em São Paulo

A investigação de possíveis fraudes foi discutida com antecedência. Representantes de diversos grupos de São Paulo se encontraram em janeiro na Biblioteca Mário de Andrade, no centro, para discutir como abordariam a possibilidade de fraude.

Um dos métodos aventados, em reunião acompanhada pelo UOL, foi fotografar todos os calouros no momento da matrícula na USP, para depois levantar quais haviam se valido do sistema de vagas reservadas para entrar na faculdade.

A ideia, entretanto, parece não ter sido colocada em prática. A reportagem acompanhou a confirmação da matrícula dos calouros, na quinta (15) e na sexta (16), em escolas como a Poli (de engenharia), a FEA (de economia e de administração) e a Faculdade de Direito da USP. Não havia fotógrafos dos grupos em nenhuma das recepções, com exceção de pais e parentes que faziam retratos dos seus filhos pintados e de cabelos raspados.

USP Não se Pronuncia

O vestibular de 2018 da USP foi o primeiro a usar um sistema de cotas que crescerá gradualmente. Neste ano, 37% das vagas de graduação foram reservadas para alunos do ensino público. É de dentro dessa cota para a rede pública que são reservadas as vagas para PPI --elas representam o percentual da população preta, parda e indígena no Estado de São Paulo, segundo o IBGE. O número de vagas para PPI ficou em torno de 12% do total.

Até 2021, metade das vagas de cada curso deverá se destinar a alunos vindos de escolas públicas, aumentando também o número de vagas para PPIs.

Procurada para comentar as afirmações dos coletivos negros, a USP não se pronunciou até a publicação desta matéria.

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