Alimentação

"Cérebro odeia dietas", diz nutricionista francesa que é contra regimes

Divulga??o
A nutricionista franco-brasileira Sophie Deram acredita que dietas restritivas desregulam o cérebro Imagem: Divulga??o

Thamires Andrade

Do UOL

24/11/2016 16h14

Em um mundo dominado por blogueiras fitness, a nutricionista franco-brasileira Sophie Deram vem na contramão dos regimes. Autora do livro "O Peso das Dietas" (Ed. Sensus), ela é contra alimentações restritivas, pelo "efeito nocivo" que elas têm no cérebro e acredita que o prazer de comer é extremamente importante para a saúde. Segundo ela, o cérebro "odeia dietas" e, portanto, quando você decide segui-las, passando por cima da sua fome, está travando uma guerra contra si mesmo.

"A pessoa faz dieta e emagrece, pois, sim, ela funciona a curto prazo. Depois se sente frustrada ou triste. Aí ela passa a desejar os alimentos que são proibidos e restritos da alimentação e, quando se permite sair da dieta, exagera no consumo", afirma Sophie. Ela ainda prega que o prazer de comer é "primordial na vida". "Inclusive, no guia alimentar francês, está escrito que todo mundo tem direito ao prazer de comer. Por isso, eu acho que os profissionais precisam respeitar esse prazer do paciente, mas ainda estamos longe disso."

Em entrevista ao UOL, Sophie explicou mais do porquê é avessa a cardápios prontos, de que maneira a dieta afeta o cérebro e qual é a melhor maneira para lidar com a fome. Leia a seguir:

UOL: Por que você é uma nutricionista contrária às dietas? O que elas fazem com o corpo?

Sophie Deram: Na verdade, quando você faz dieta restritiva, nega a sua fome, sua saciedade, acaba não escutando mais as suas necessidades básicas. É como se resolvesse parar de respirar ou ir ao banheiro. Essa decisão assusta o cérebro e faz com que ele se sinta "ameaçado". Em contrapartida, o cérebro vai se adaptar e fazer de tudo para que você volte a comer novamente. Ele vai se regular para comer mais, já que você não está escutando os sinais que ele está enviando. Essa questão alimentar é a mesma coisa com a respiração. Se você prender a respiração por um tempo, quando soltar, vai respirar com mais força, o corpo vai tentar se regular. Mas ninguém relaciona isso com a comida, parece que as pessoas esquecem o “bê a bá” da sobrevivência. Acho que muito tem a ver com a nossa sociedade que está o tempo todo fiscalizando o que pode e não pode, que precisa ser magra, além de passar uma mensagem errada para a população: de que é fácil emagrecer, basta fechar a boca e malhar. 

UOL: Quais são as consequências dessa desregulação do cérebro por causa das dietas restritivas?

Sophie: Como o cérebro odeia a dieta, quando você resolve continuar, você trava uma guerra contra si mesmo. E aí as pessoas caem em um ciclo vicioso e se sentem presas nele e é quando acontece o efeito sanfona. A pessoa faz dieta e emagrece, pois, sim, ela funciona a curto prazo. Depois se sente frustrada ou triste. Aí ela passa a desejar os alimentos que são proibidos e restritos da alimentação e, quando se permite sair da dieta, exagera no consumo, se sentindo muito culpada, ganhando peso e ficando mais insatisfeita com o corpo, para depois, iniciar novamente a dieta.

UOL: Algumas dietas, como as de contagem, pregam que a pessoa pode comer tudo o que quiser, basta que controle a quantidade de pontos ou calorias ingeridos. O que acha desse método?

Sophie: Calorias não indicam qualidade, pois elas são só um cálculo de energia dos alimentos. Uma lata de refrigerante pode ter a mesma quantidade calórica de uma salada, mas eles não têm a mesma qualidade. Segundo os estudos de nutrigenômica [estudo do impacto de nutrientes na expressão dos genes do corpo], os alimentos conversam com o metabolismo. Portanto, se a pessoa só pensa em calorias, ela vai escolher alimentos com menos gordura, os light e diet, o que já sabemos que não faz mais sentido. O que engorda mais é tudo que eleva a insulina, que tem a ver com a ingestão do carboidrato, que, por sua vez, nunca podemos tirar, pois é nosso combustível. Na realidade, quando a pessoa está em paz com a comida, respeitando a fome e saciedade, ela tem menos fome. O cérebro passa a respeitar. Meus pacientes começam a comer menos doce, sentem o apetite reduzir, porque não tem o comer emocional. E quando eles veem estão fazendo dieta sem querer. Estão comendo menos e menos doce. Seria totalmente diferente para o cérebro deles se eu falasse: "Vamos cortar o doce e reduzir as porções?". A grande verdade é que a maioria das pessoas que faz dieta por muito tempo não sabe mais o que sente, se é fome, tristeza, necessidade e aí invés de resolver o real problema, decide comer, seja por felicidade, tristeza, desespero. Quando, na verdade, ela precisava resolver aquela emoção de outra maneira. Mas se o sistema de pontos for usado para reorganizar a alimentação, para uma reeducação alimentar e não para restrição calórica, pode ser interessante. O importante é que o paciente seja dono da própria fome.

UOL: Qual é a diferença entre o comer emocional e a compulsão?

Sophie: A compulsão é uma doença, uma perda de controle. Muita gente usa a palavra compulsão, mas, na verdade, está sendo exagerado. O comer emocional é a busca pelo alimento para resolver as emoções. A pessoa está triste e, em vez de chorar, vai comer um pacote de bolacha. Essa atitude atrapalha quem quer emagrecer, pois, geralmente, as pessoas descontam essas emoções nos alimentos mais recompensadores e calóricos. O comer emocional também faz com que a pessoa se alimente sem fome. Ou seja, o corpo não está pronto para receber comida nem precisa daquilo naquele momento, o que ocasiona o ganho de peso. É importante pontuar que nós não nascemos assim, que o comer emocional se desenvolve ao longo da vida e, geralmente, é desencadeado pelas restrições.

UOL: O que é uma dieta restritiva?

Sophie: É aquela dieta que vai fazer você passar fome para poder emagrecer. Não sou contra um programa alimentar para um paciente que tem diabetes ou outra patologia que precisa de uma reorganização alimentar. Sou contra as que fazem passar fome, que restringem calorias, alimentos que a pessoa gosta e grupos alimentares, como as sem carboidratos, glúten, lactose, essas da moda. Claro que a pessoa vai emagrecer com elas, mas grande parte delas vai voltar a engordar novamente.

UOL: Vira e mexe, um novo alimento cai na berlinda e é tido como vilão. Como você vê essa “demonização”, que já aconteceu com o ovo e com a gordura, por exemplo?

Sophie: Acho esse "terrorismo" nutricional muito prejudicial, principalmente para o público leigo, que não entende muito bem. Na verdade, quando você começa a assustar a pessoa, dizendo que ela não pode comer determinada coisa, ela não se alimenta mais em paz. Pode afetar até a digestão do indivíduo. Muita gente acaba entrando nessa onda de cortar o alimento da vez, mas, eventualmente, elas vão comer e ainda se sentirem culpadas, o que não é bom.

UOL: Por que, na sua opinião, o prazer de comer também afeta a saúde?

Sophie: A definição de saúde, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), é um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Portanto, não devemos negar prazer de viver, de fazer as coisas. Nosso cérebro é primitivo nesse aspecto e precisa ter recompensas. Se você se priva de prazeres, pode até adoecer. E o prazer de comer é muito importante. Eu diria que é primordial na vida. Inclusive, no guia alimentar francês, está escrito que todo mundo tem direito ao prazer de comer. Por isso, eu acho que os profissionais precisam respeitar o prazer de comer do paciente, mas ainda estamos longe disso...

UOL: No livro “O Peso das Dietas”, você diz que as pessoas estão com medo da própria fome. Por quê?

Sophie: Vejo muito isso entre as pessoas que seguem dietas restritivas. O apetite fica maior e a tendência é comer mais até do que o corpo precisa. As pessoas têm medo da fome, pois acham que sentem muita e, realmente, quando você não respeita seu corpo ele “grita”. Mas a realidade é que as pessoas perderam a autonomia da própria fome. A pessoa vai em um nutricionista que prescreve uma dieta restritiva e no lanche da tarde a pessoa pode comer uma castanha-do-pará e duas castanhas-de-caju. E o paciente fica com fome. Ele deixa alguém decidir por ele sobre a própria fome dele e essa pessoa o desrespeita. Talvez, naquele horário, ele nem tenha vontade de comer ou talvez aquela porção não seja suficiente naquele dia e aquela quantidade pequena só vai deixá-lo estressado. É muito difícil sugerir uma “dose única” capaz de sustentar a fome, pois ela é “viva”, varia a cada dia. O mais interessante que a pessoa pode fazer é retomar a posse da própria fome, escutá-la. 

UOL: Na sua opinião, o método "mindful eating" é uma boa maneira de aprender a lidar com a fome? 

Sophie: O conceito do "mindful eating" vem do budismo, da raiz do mindfulness, que é o propósito da atenção plena. Por muito tempo o mindfulness foi usado para ajudar a lidar com o estresse e hoje também está ajudando a tratar certos comportamentos alimentares, como os transtornos e o comer emocional. A ideia é que a pessoa esteja presente na hora de comer, concentrada e não pensando em outras coisas. Ela precisa saborear a refeição, prestar atenção e respeitar sua fome. Não é todo mundo que consegue comer devagar, parar quando está satisfeito. O interessante é que o mindful eating, também chamado de comer consciente, está sendo apontado como a melhor opção para conseguir um peso saudável e sustentável. Era o que os nossos avós faziam, sem saber. Eles se reuniam na mesa para almoçar, sentavam e comiam em função da fome deles.

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