Vida saudável

Ela sofreu por nove anos com vaginismo e se curou: "Não me sentia mulher"

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Vaginismo é uma contração involuntária na região perineal, que faz com que ocorra um estreitamento no canal vaginal, tornando a penetração muito dolorida Imagem: iStock

Gabriela Ingrid

Do UOL

15/08/2017 04h15

Karen Godoy, 31 anos, passou grande parte da sua vida sexual sem conseguir a penetração. A paulista sentia muita dor e por anos achou que o problema era dos homens com quem saía. Após muitas pesquisas e um ano de terapia, foi diagnosticada com vaginismo.

Esse distúrbio é uma contração involuntária na região perineal, que faz com que o canal vaginal se estreite e impossibilite a penetração. Geralmente, as mulheres com esse problema têm um histórico emocional de abuso ou de violência física. O caso de Karen não foi diferente. Abaixo, leia o depoimento que ela deu ao UOL:

“Aos 19 anos, tive minha primeira relação sexual. Na hora da penetração, eu não conseguia relaxar, senti que a minha perna ficou dura e eu travei. Achei que era normal, algo relacionado ao nervosismo da primeira vez. Cheguei até a achar que o problema era com o cara.

Mas essa tentativa frustrada persistiu. Eu conseguia me relacionar, fazia sexo oral e tudo, mas nada da penetração. Nesse sentido, sinto que tive muita sorte com as pessoas com quem namorei. Conheço mulheres que sofreram com muito machismo, caras que tentaram forçar o sexo. Mas comigo foi mais tranquilo, porque estive com homens que compreenderam meu problema.

Quando estava com 21, pesquisei pelos meus sintomas na internet e encontrei pela primeira vez a palavra vaginismo. Tudo bateu, então eu mesma já me dei o diagnóstico naquela hora --mesmo sem nem saber como tratar.

Uma crise de ansiedade fez com que eu procurasse um tratamento psicológico

Eu só fui atrás de terapia quando estava com 25 anos. A questão de não conseguir a penetração somada ao fato de eu ter entrado em uma faculdade pública e ter que estudar muito fez com que eu tivesse uma crise de ansiedade. Procurei o apoio profissional e, em uma das conversas, acabei comentando o meu problema sexual.

Sem saber ao certo do que se tratava, minha terapeuta pediu para que eu continuasse com a minha vida sexual como estava por mais um tempo, para que ela pudesse fazer a análise e diagnosticar. Um ano depois, lá estava ela me falando sobre o vaginismo. Eu sei que eu já tinha pesquisado sobre o assunto, no fundo eu até já sabia o que eu tinha, mas a certeza de uma profissional me machucou muito. Fiquei chateada, chocada com a comprovação de que eu tinha esse problema de fato.

Em paralelo à terapia, também busquei pela fisioterapia pélvica

No primeiro lugar que eu vi, cada sessão custava de R$ 100 a R$ 150 e eu não tinha como pagar. Felizmente, descobri o Projeto Afrodite, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Lá eles tratam o problema gratuitamente, com acompanhamento ginecológico, psicológico e fisioterápico. Fiquei um ano na fila de espera até conseguir ser chamada. Optei por permanecer com a minha psicóloga e comecei o tratamento no Projeto.

No início, você passa por uma triagem, onde é feito um exame de toque. A médica coloca um cotonete em quatro pontos da vagina e você tem que dizer qual o grau da sua dor ou aflição em cada ponto, de 0 a 100. Depois disso, é definida sua primeira sessão de fisio, que é mais psicológica também. Falei sobre a minha história e por que estava ali. O toque só vem na segunda sessão. Na primeira tentativa eu chorei muito, pela questão psicológica e até pela dor, que depois eu fui descobrir ser fantasiosa (meu corpo fazia de tudo para eu não introduzir nada).

Na terceira sessão, eu já consegui deixar. Cada sessão dura em média 40 minutos. Na época, o meu relacionamento já tinha esfriado um pouco, já que a gente sempre tentava a penetração e eu nunca conseguia. Até que um dia fomos viajar e eu, que nem me preocupava mais se conseguiria ou não, consegui. 

Após sete meses de tratamento, aos 28 anos eu consegui ter minha primeira relação sexual com penetração.

Maioria das causas do vaginismo é emocional

Quando eu era pequena, eu tive uma educação repressora por parte da minha avó. Ela falava que sexo era nojento e algo muito ruim. Meu pai também sempre foi muito machista e eu ainda sofri um abuso sexual de um tio quando tinha 12 anos. Não sei ao certo se essas são as causas definitivas, mas tudo isso fez com que, psicologicamente, eu enxergasse a penetração como algo errado.

Hoje eu sinto que superei, encaro tudo com mais naturalidade, mas foi uma fase difícil. Não me sentia mulher, me sentia uma criança, uma menina. Minha psicóloga até falava que eu tinha algumas fugas, gostava muito de rosa, de bonecas. A transformação para mulher ocorreu um pouco antes de eu conseguir a penetração, quando eu percebi que era capaz de conseguir o que eu queria, que também era poderosa.

Falamos tanto de problemas sexuais masculinos, mas ninguém pensa na mulher

Eu acho que o vaginismo é pouco divulgado, até pela questão do tabu. Como não 'precisamos' de ereção, as pessoas acham que não sentimos prazer, que é só penetrar e pronto. Eu nunca tive problema para ter um orgasmo, mas depois da penetração mudei minha forma de enxergar o sexo. Eu tentei por tanto tempo isso que cada vez que eu consigo é uma vitória. É engraçado, porque para algumas mulheres isso pode parecer banal, mas para mim cada vez ainda é uma conquista, é especial. 

É importante que as mulheres que estejam passando por isso enfrentem a realidade. Demorei muito para entender que o problema estava em mim e não nos outros. O segundo passo é buscar ajuda com a terapia e depois a fisioterapia. Como muitos casos vieram de abuso e educação repressora, é bom ter o acompanhamento psicológico primeiro para não desistir."

Saiba mais sobre o vaginismo

Definido como uma contração involuntária dos músculos do assoalho pélvico, o vaginismo faz com que ocorra um estreitamento no canal vaginal, tornando a penetração muito dolorida. “Muitos ginecologistas não têm conhecimento para fazer esse diagnóstico”, afirma Camila Garcia de Carvalho, especialista na área de Fisioterapia em Ginecologia pela Escola Paulista de Medicina (EPM). “Eles dizem que a mulher tem a vagina muito curta ou que é um excesso de medo e ela só precisa relaxar. Mas o vaginismo precisa de tratamento.”

Essa contração involuntária causa desconforto, ardência e dor durante a penetração sexual ou em um exame ginecológico. As causas variam e podem ser físicas e psicológicas, originando-se desde uma infecção urinária ou um parto normal até abuso sexual e agressões físicas. Por isso, para o tratamento, existem três pilares essenciais: o ginecologista, o fisioterapeuta e o psicólogo.

“Este último vai abordar todo um histórico dessa mulher, ver como ela lida com a dor e com o medo. Já o fisioterapeuta trabalha a consciência corporal, além de alongar e massagear a musculatura pélvica para depois tratar o assoalho”, diz Camila. “O importante é que o médico ouça a mulher e, uma vez diagnosticada, que ela se envolva totalmente com o tratamento. Porque o vaginismo tem cura, mas é preciso dedicação”, explica a fisioterapeuta.

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