Boa forma

Ele ficou paraplégico e com o esporte reaprendeu a amar seu corpo

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Após sair do hospital, Ulisses chegou a pesar 65 quilos que logo viraram 115 Imagem: Reprodução/Instagram

Thamires Andrade

Do UOL

18/08/2017 04h15

Saudável e vaidoso, Ulisses Leal Freitas, 37, teve que se reinventar após um acidente de moto o deixar na cadeira de rodas. Depois de conhecer o paraciclismo, ele voltou a se sentir bem com o seu corpo e, quando passou a competir, notou que seu maior adversário era seu peso e conseguiu eliminar 30 kg. Leia seu depoimento:

"Eu e meu irmão éramos policiais militares na cidade de Paulo Afonso, na Bahia, que ficava a 200 km da nossa casa, em Paripiranga. Há nove anos, estávamos voltando do trabalho de moto, quando um bêbado, dirigindo na contramão, 'pegou' a gente. Meu irmão morreu seis dias depois e eu fiquei onze meses no hospital. Antes do acidente, jogava futebol e era professor de capoeira.

Tinha 100 quilos e 1,84 m de altura. Era bem vaidoso e sempre gostei de malhar. Depois do acidente, minha massa muscular se foi. Saí do hospital com 65 quilos em uma cadeira de rodas e estava irreconhecível. Deprimido, não aceitava a cadeira e só ficava trancado no quarto. Trocava o dia pela noite e só ficava na internet. Comecei a comer descontroladamente e a balança pulou de 65 para 115 quilos.

Já tenho tendência natural a engordar e, nessa época, eu comia de tudo: coisas gordurosas e calóricas, tanto fazia se era doce ou salgado. Meu corpo nem estava pedindo, mas eu queria comer. Era aquela coisa de, em uma sentada, acabar com um bolo inteiro.

Em 2010, conheci o basquete em cadeira de rodas, mas não levava muito a sério. Ainda estava acima do peso e tudo mais. Em 2012, eu conheci o paraciclismo e comecei a competir, mesmo chegando em último lugar.

Meu maior adversário era meu peso

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Imagem: Reprodução/Instagram
A competição foi o estalo que me fez querer emagrecer. No paraciclismo, nós pedalamos com os braços, então, devido ao meu excesso de peso eu não conseguia evoluir, só ganhava lesões. Os meus adversários passavam por mim e riam. ‘Lá vai o Ulisses ficar em um último lugar’, falavam.

Em agosto de 2013, decidi que seria campeão e foi aí que eu busquei um nutricionista para me ajudar. Eu já tinha conseguido emagrecer uns dez quilos sozinho. Nessa época, estava com 96, mas queria reeducar minha alimentação, pois o objetivo era competir profissionalmente, levar o esporte mais a sério.

No fim de outubro, venci uma competição em Curitiba pela primeira vez. No ciclismo, se você engordar gramas já faz diferença. O peso influencia demais. Minha genética é para engordar e meu maior adversário é meu peso.

Mas, mesmo assim, segui a dieta religiosamente. Se estava com fome, ia dormir para não ficar pensando. Em poucos meses, perdi 20 quilos. Cheguei a comprar balança e pesar tudo direitinho. Deixava o plano alimentar colado na geladeira e a minha esposa me ajudou muito a enfrentar esse processo.

Quando alguém me pergunta como eu fiz para trincar a barriga, sou sincero. Falo para fazer uma reeducação alimentar e ser feliz. Essa coisa de barriga trincada é para quem ganha para isso, não nego que seja um sofrimento, porque a gente precisa ser bem regrado.

Apesar de hoje minha dieta ser menos restrita, teve coisas que aboli, como arroz branco e açúcar refinado. Agora é só integral e mascavo. Precisei pensar na saúde, pois, por ser cadeirante, posso ter mais complicações no decorrer da vida. Por isso, preciso cuidar bem do meu corpo.

Me sinto bem com meu corpo, mas é uma luta diária

Hoje me sinto feliz comigo e com meu corpo. Deixei de comer as porcarias. Sei que quanto mais gostoso, mais faz mal. Atualmente, meu peso varia de 72 a 78 quilos, tudo depende se estou treinando para competição ou não.

Nunca mais quero voltar ao que era antes, mas reconheço que é uma luta diária. A luta com a mente permanece e é a mais difícil. Ter o foco no ciclismo me ajuda, porque hoje eu treino e me alimento para isso. Sou muito competitivo. Teve uma vez que vi um adversário rindo de mim e eu falei: ‘Você não vai mais ganhar de mim’ e eu to seguindo essa promessa até hoje.

Não tenho planos para me aposentar, afinal, o campeão mundial é um polonês de 42 anos. Acho que ainda vou competir por muitos anos. Mas o ciclismo mudou minha vida para melhor. Por onde eu passo, as pessoas perguntam o que eu fiz para ficar assim e isso levanta o ego.

Hoje meus treinos são pesados e sou tricampeão brasileiro

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Imagem: Reprodução/Instagram

Por conta do esporte, preciso de um pouco de reserva de gordura, então, tomo comprimidos de ômega 3, que é gordura boa, óleo de carne e até como carne com músculo. Ser ciclista é diferente de ser fisiculturista, que pensa mais na estética. Eu preciso de energia para meu corpo.

Comecei a musculação em 2010, logo que entrei no basquete, mas chegava na academia, levantava 120 quilos no supino e ia embora. Tinha força. Mas quando comecei a usar a handbike, que é a bicicleta adaptada para quem é cadeirante, achei que ia pedalar muito por ter força, mas não aguentei.

Aí passei a treinar três vezes por semana, mas ainda não era profissional, pedalava por fazer. Hoje, meus treinos são pesados. Afinal, sou tricampeão brasileiro, já cheguei a representar o Brasil na Itália e na Bélgica.

Atualmente, treino de duas a quatro horas de ciclismo seis vezes por semana, fora a parte de musculação que eu faço quatro vezes por semana. Fora alguns treinos funcionais que faço em casa com exercícios de abominais, argolas e corda naval.

Tenho 37 anos, também preciso respeitar os momentos de descanso. Não adianta querer pedalar muito, se o corpo não estiver descansado e alimentado. Prefiro não ir treinar do que treinar errado."

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