Vida saudável

Gravações ajudam pacientes a se lembrarem de orientações das consultas

 Adam Bird/The New York Times
Sheri Piper visita seu médico, James Ryan, em Ludington, Michigan. Com permissão, Ryan registra as consultas para que seus pacientes possam ouvir quando precisarem lembrar o que discutiram com ele. Imagem: Adam Bird/The New York Times

Paula Span

Do New York Times, de Nova York

24/08/2017 12h41

Da próxima vez que você se consultar com um cardiologista ou com um clínico geral, o que aconteceria se você tirasse o smartphone ou um gravador digital e dissesse que gostaria de gravar a consulta?

O médico poderia ficar assustado, frustrado ou imaginar que aquela conversa supostamente confidencial apareceria no YouTube — ou nos arquivos de um processo por negligência médica. Ou então, o profissional poderia encarar o caso como o Dr. James Ryan, um médico de família de Ludington, no Michigan.

Com a aprovação dos pacientes, Ryan costuma gravar as consultas e fazer o upload do áudio para uma plataforma segura na internet para que os pacientes possam ouvir a gravação caso precisem se lembrar do que foi dito. Eles podem também permitir que familiares tenham acesso aos áudios.

Sheri Piper, que vai praticamente todos os meses ao consultório de Ryan em função de uma série de problemas médicos -- gota, pressão sanguínea elevada, hipotireoidismo, ansiedade e depressão -- utiliza bastante o sistema.

“Com a chegada da idade, fica mais difícil não me perder com tudo o que o médico diz no consultório”, afirma Piper, assistente administrativa aposentada de 63 anos. Em 2013, uma série de hospitalizações e operações afetaram sua memória, conta ela, então “você pode me dizer uma coisa hoje e eu não vou conseguir me lembrar dela amanhã”.

Assim, no mês passado, ao encontrar dificuldades para se lembrar do que Ryan havia dito a respeito da frequência do remédio para gota, ela recorreu às gravações (com anotações por escrito, para que o paciente possa localizar tópicos específicos com facilidade).

Adam Bird/The New York Times
Sheri Piper visita seu médico, James Ryan, em Ludington, Michigan. Imagem: Adam Bird/The New York Times

Depois de mudar os medicamentos para controlar a pressão, ela pediu à filha, que mora perto, para escutar a consulta e ficar atenta aos possíveis efeitos colaterais. “Em algum momento, gravar esses encontros se tornará um procedimento normal”, afirma Ryan — apesar da resistência de alguns médicos, ele acredita que a realidade deve mudar nos próximos 20 anos.

Mas não se trata de uma ideia sem sentido, especialmente no caso de pacientes mais velhos. Assim como Piper, os mais idosos enfrentam uma série de problemas de saúde, de forma que vão com maior frequência ao médico e também tomam mais remédios.

Muitos deles também têm problemas de audição, e a pesquisa mostra que encontram mais dificuldades que os pacientes jovens para se lembrar das informações transmitidas durante a consulta.

“Esse contexto exige uma memória melhor, além da necessidade de decifrar e interpretar palavras difíceis”, explica o Dr. Glyn Elwyn, pesquisador do Instituto de Políticas de Saúde e Prática Clínica de Dartmouth, e autor principal de um editorial publicado recentemente na revista científica JAMA a respeito de gravações feitas por pacientes.

Com frequência, quando os pacientes mais velhos querem contar a um parente que vive longe o que o médico disse, “eles têm dificuldades, não conseguem se lembrar da linguagem complexa utilizada e não possuem uma gravação para ajudá-los”, acrescenta Elwyn.

O editorial destaca que, na maioria dos estados norte-americanos, é possível gravar as consultas. Por causa das leis contra escutas ilegais, 11 estados exigem o consentimento de todas as partes envolvidas. Neles, (Califórnia, Flórida, Illinois, Maryland, Massachusetts, Michigan, Montana, New Hampshire, Oregon, Pensilvânia e Washington), é necessário o consentimento do médico para fazer a gravação.

Contudo, em 39 estados e no Distrito de Columbia, a lei exige o consentimento de apenas uma das partes. Além disso, a Lei de Portabilidade e Responsabilidade do Seguro de Saúde, lei federal que protege a privacidade de informações de saúde, também não proíbe que pacientes façam gravações, já que não são “entidades cobertas”.

Nessa jurisdição, os médicos que não se sentem confortáveis com a gravação, precisam aceitar a situação, concordar com a gravação ou interromper a consulta (e alguns especialistas argumentam que nem isso é possível). Porém, pela lei, o paciente pode continuar a gravar.

E talvez seja útil saber que uma revisão de 33 estudos sobre a gravação de consultas revelou que a maioria dos pacientes ouve os áudios, compartilha-os com seus cuidadores e que eles os ajudam a reter e compreender as informações.

Mina confiança

Você também pode gravar discretamente, como já acontece agora que gravadores -- ou seja,smartphones -- cabem em bolsos e bolsas. Em uma pesquisa envolvendo 128 pacientes do Reino Unido, Elwyn e outros pesquisadores descobriram que 15 por cento dos pacientes afirmam ter gravado a consulta sem avisar o médico.

Ele, porém, não gosta dessa ideia. “Isso atrapalha fundamentalmente o relacionamento”, afirma, minando a confiança entre médico e paciente.

Elwyn acredita que o melhor é transformar as gravações em uma prática aberta e aconselha os pacientes a serem cautelosos com o uso dessas gravações (lembrando que o paciente pode pausar a gravação a qualquer momento, caso não queira que outras pessoas saibam o que foi dito).

O temor dos médicos em relação ao uso das gravações em processos não é completamente infundado. No Reino Unido, segundo Elwyn, algumas gravações foram utilizadas como evidências nos tribunais. Nos EUA, “isso ainda não ocorreu”, afirmou.

Porém, em 2015, um júri da Virgínia ordenou que uma anestesista e seu consultório pagassem US$500 mil a um paciente que entrou com um processo após inadvertidamente gravar os insultos feitos pela equipe médica enquanto ele estava sedado e sendo submetido a uma colonoscopia.

Além disso, a prática generalizada de gravar as consultas poderia gerar questões sobre quem são os proprietários das gravações, quem pode utilizar o crescente arquivo de interações entre médicos e pacientes e para quê.

Ryan, por exemplo, acredita que esse tipo de dado -- desde que sem identificação – tem o poder de ajudar pesquisadores e futuros médicos a melhorar a comunicação com os pacientes. Porém, as informações também podem ser utilizadas para fins menos positivos, como campanhas de marketing.

Diversos consultórios e instituições já estão gravando as visitas dos pacientes -- o instituto de Dartmouth está estudando suas abordagens e resultados — e vem relatando poucos problemas.

O Setor Médico da Universidade do Texas, em Galveston, compra gravadores e pilhas em grandes quantidades para oferecer aos pacientes das clínicas oncológicas. Cerca de 300 novos pacientes com câncer concordam em utilizá-los todos os anos, afirmou a Dra. Meredith Masel, diretora do Centro Oliver de Segurança do Paciente e Qualidade dos Tratamentos Médicos, que iniciou o programa em 2009 e continuará em breve a expandi-lo para os setores de medicina interna e geriatria.

No Instituto Neurológico Barrow, em Phoenix, o neurocirurgião Randall Porter prefere gravações em vídeo. Ele utiliza modelos plásticos do cérebro e da espinha durante as consultas e mostra aos pacientes (metade dos quais com mais de 60 anos de idade) o resultado de seus exames de ressonância magnética.

Com o consentimento dos pacientes, grava as sessões com um iPad e oferece o vídeo para que assistam mais tarde em uma plataforma online que fundou, chamada Medical Memory. Eles também podem permitir que o vídeo fique acessível a parentes e amigos.

Sem as gravações, “os pacientes esquecem 80 por cento do que dissemos antes mesmo de chegarem ao estacionamento”, afirma Porter. Mas o médico compreende por que isso acontece: muitas vezes ele fala sobre abrir seus crânios, um tema emocionalmente carregado.

Em sua pesquisa envolvendo 333 pacientes, cerca de metade deles afirmou que assistiram aos vídeos mais de uma vez, e dois terços compartilharam os vídeos com outras pessoas. A maioria disse que isso os ajudou a recordar de detalhes e a se sentir mais tranquilos a respeito de suas condições médicas.

Longe de aumentar a possibilidade de litígios, afirma Porter, o uso do sistema na verdade diminuiu pela metade os gastos da instituição com casos de negligência médica. Desde 2015, mais de 400 médicos passaram a usar o Medical Memory, gravando 28 mil consultas.

Enquanto vários médicos não querem gravar as consultas, os pacientes se importam muito menos. Das 500 pessoas a quem Ryan propôs a gravação, apenas quatro preferiram não ter a consulta gravada — e um deles mudou de ideia antes do fim do atendimento.

Quando os pacientes concordam — ou trazem um gravador e iniciam o processo por conta própria — “eles não estão tentando nos pegar”, afirmou Porter. “Na verdade, eles estão desesperados para se lembrar de tudo o que falamos.”

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