Vida saudável

Câncer de mama metastático não é mais visto como sentença de morte

Reprodução/Facebook
Elfriede e o marido, Jadyr Imagem: Reprodução/Facebook

Thamires Andrade

Do UOL

02/10/2017 04h15

Elfriede Galera, 61, tinha um plano para sua aposentadoria: dar uma volta ao mundo no veleiro que ela e o marido, Jadyr, estavam construindo. Em 2010, Frida, como é chamada, recebeu um diagnóstico de câncer de mama metastático e teve um apagão. "Sempre ouvi que metástase era igual a morte. Mas meu médico disse que eu ia conseguir viver com qualidade de vida e essa notícia já me deixou feliz", conta.

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Frida vive há mais de sete anos com a doença e fez algumas adaptações em seus planos. Agora, a meta dela e do marido é, com o auxílio de um financiamento coletivo, subir a costa brasileira e fazer ações em hospitais para falar sobre a prevenção do câncer de mama e mostrar que é possível viver com metástase.

"Claro que tenho efeitos colaterais permanentes das quimioterapias que fiz, tenho neuropatia (dormência nos nervos) nos dedos e nas pontas dos pés, mas faço atividade física para amenizar. Hoje, vivo intensamente e faço tudo que eu gosto e me dá prazer. E uma delas é falar com outros pacientes oncológicos de que nós podemos conviver com o câncer de forma mais leve", acredita.

Câncer = doença crônica

Histórias como a de Elfriede têm se tornado realidade para as pacientes com câncer de mama metastático, que significa que o câncer que estava originalmente na mama se espalhou para outras partes do corpo, como ossos e linfonodos. No Brasil, cerca de 13 a 15 mil mulheres convivem com a doença anualmente e as mudanças no tratamento foram fundamentais para que o diagnóstico de metástase deixasse de ser uma sentença de morte.

"Hoje, nós podemos dizer que o câncer se tornou uma doença crônica. Antigamente, quem recebia diagnóstico de metástase vivia pouco tempo. Era algo agudo. Hoje nós conseguimos manter a paciente com a doença controlada por longos períodos", explica Pedro de Marchi, oncologista do Hospital de Câncer de Barretos.

Essa mudança no paradigma da doença é semelhante com o que aconteceu com o HIV na década de 80. Max Senna Mano, chefe do Grupo de Câncer de Mama do Icesp (Instituto do Câncer de São Paulo), lembra que, antigamente, os pacientes morriam de Aids dois meses depois do diagnóstico, enquanto hoje as pessoas vivem anos com o vírus reprimido com qualidade de vida.

No caso de câncer de mama, as mulheres já vivem de 10 a 15 anos com a doença em sua forma crônica. Isso só foi possível graças ao avanço da medicina personalizada, que é uma classe de medicamentos desenvolvida para atuar em um alvo específico e controlar o desenvolvimento do tumor.

Diferentemente da quimioterapia, que mata qualquer célula, as drogas alvo moleculares atacam apenas as tumorais. “O medicamento impede que a célula tumoral se reproduza e isso faz com que elas envelheçam e morram naturalmente”, explica Marchi.

Entraves da medicina personalizada

Oncologista há mais de 40 anos, Drauzio Varella acredita que essas dezenas de novas drogas estão colocando a oncologia em um outro patamar. Mas para ter acesso a essas novas terapias, existem alguns entraves. Um deles é o exame capaz de detectar a mutação do tumor, que não é coberto pelo SUS. “Esse teste costuma ser financiado pela indústria farmacêutica”, fala Marchi.

A outra questão é referente ao custo dessas medicações. “São drogas caras, que tem um processo de desenvolvimento custoso e, por isso, entram no mercado com preço alto. Isso faz com que a Anvisa segure a liberação desses novos medicamentos, pois o impacto financeiro no SUS e na saúde suplementar vai ser grande”, destaca Drauzio Varella.

E essas drogas que conseguiram elevar a qualidade de vida das pacientes. “Hoje elas têm a vida mais próxima possível do normal. A maioria trabalha e toca a vida normalmente, mas com algumas limitações, como ter que vir no hospital fazer tratamento”, fala Manso.

No entanto, os medicamentos têm sim efeitos colaterais. “Dependendo da droga, a qualidade de vida não é tão boa. Algumas provocam diarreias importantes. Se um dia passando mal já é ruim, imagina viver com isso?”, questiona Drauzio.

Além das drogas anticâncer, Rafael Kaliks, oncologista membro da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), também destaca que houveram avanços no controle da dor das pacientes, principalmente nas que tinham metástase óssea.

“Agora temos mais drogas para a dor e para diminuir os efeitos colaterais do tratamento, como as dores neuropáticas que comprometem os nervos. Também temos uma série de antidepressivos para ajudar no controle da depressão”, elenca Kaliks.

Mas então essas drogas são capazes de curar o câncer?

Ainda não dá para dizer isso. As drogas alvo moleculares, de fato, são um avanço importante para a oncologia, mas o problema é que, eventualmente, elas param de fazer efeito e aí o oncologista precisa trocar o protocolo e, muitas vezes, a doença progride.

Segundo Drauzio, o termo 'cura' é muito evitado pelos oncologistas. “Hoje temos casos de câncer de mama com remissão completa de cinco anos. Será que esses pacientes não estão curados definitivamente? Talvez sim, mas a gente é reticente em falar ‘cura’, preferimos remissão. Mas no futuro acredito que existirão drogas capazes de curar a doença", fala Drauzio.

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