Comportamento

Ivan da vida real é mãe e namora um homem hétero; conheça Tabs Oliveira

Amanda Serra

Do UOL, em São Paulo

20/09/2017 04h00

A história de Ivan (Carol Duarte), a Ivana, pode até ser ficção, mas o fato é que a personagem transgênero de “A Força do Querer”, da Globo, está prestando um serviço de representatividade e conscientização à comunidade trans, aos pais que convivem com a transição de gênero e à sociedade como um todo.

Assim como na novela de Glória Perez, o carioca Tabs Oliveira Leivas (nome social), 26 anos, nasceu Tabata e demorou para compreender e aceitar que era um trans gay. Na trama, Ivan é apaixonado por Claudio (Gabriel Stauffer) e nos próximos capítulos descobrirá que está grávida do ex-namorado. E como a arte imita a vida real, há um ano e meio, Tabs namora um homem e é mãe de uma menina de 3 anos

A transição começou a partir dos 15 anos, quando o jovem passou a cortar o cabelo curto e, aos poucos, foi percebendo que se sentia mais confortável com o visual tido como masculino, ainda que mantivesse características femininas. A transformação de fato ocorreu aos 23 anos, logo após uma gravidez não planejada, mas não indesejada. E assim, Tabs se tornou “o mamãe” - como prefere ser chamado.

“Nunca me achei estranho, mas cresci gostando de usar roupas masculinas, às vezes, algumas mais delicadas. Mas não sabia o que eu era. Não sabia que uma pessoa trans pode ter características femininas ainda que se identifique com o gênero masculino. Achava que tinha a ver com estereótipos e não é bem assim. Não sou menos homem por gostar de rosa, por gostar de maquiagem ou outras coisas consideradas femininas”, conta Tabs em entrevista ao UOL.

Reprodução/TV Globo
Carol Duarte na pele de Ivan de "A Força do Querer" Imagem: Reprodução/TV Globo
 A importância da representatividade

"Descobrir que sou um homem trans me trouxe felicidade, alegria. Pude me olhar, entender e me aceitar totalmente. A cena em que o Ivan olha no espelho e entende que é transgênero aconteceu comigo. A gente se olha e vê que algo que sempre esteve ali finalmente se libertou. Foi bom ver isso na TV, e saber que muitos outros também passam ou vão passar por uma situação parecida. É como se a gente tirasse um peso das costas e finalmente pudéssemos ser quem somos por dentro, traz uma sensação de conforto.

A novela traz visibilidade, tem o poder de ajudar gente que como eu que não sabia que era trans a se encontrar, além de contribuir na quebra de preconceito. Quando o assunto não tinha tanta visibilidade, buscava informações nas redes sociais, em blogs. É importante lembrarem dá nossa existência".

O apoio dos familiares e do namorado

"No início, minha mãe não aceitou, também não me apoiou. Foi como levar uma facada. Ficamos quase um ano sem no falar. Aos poucos, ela passou a compreender e a usar pronomes masculinos como - ‘meu filho’, ‘ele’. Quando isso aconteceu, vi que não tinha mais porque ninguém me chamar pelo feminino. É muito bom ter o apoio dela, sinto que posso tudo com isso, me dá forças. Em casa, sempre fui eu e ela. Não conheci meu pai.

O apoio do meu namorado (André Vinicius Ottoni Porto, 20 anos, de Belo Horizonte) foi essencial, me encorajou. Sabia que o teria comigo. Mas, claro, que tive muito medo de contar, pensava: ’e se ele não me quiser mais? ’ Mas ele aceitou e é um dos meus maiores apoiadores.

Em conversa com a reportagem, o mineiro conta que já desconfiava da condição do namorado e o suporte foi instantâneo. “Além de sermos namorados, somos melhores amigos. Quando ele me contou, foi natural, não me causou surpresa. É o meu primeiro namoro com um trans e não vejo nada demais nisso”, diz ele que se reconhece como heterossexual ainda que esteja em uma relação gay no momento. “Sei que o preconceito existe e temo pelo ódio”.

"Minha filha ainda é novinha, mas quero muito que ela saiba quem eu sou, quero explicar e imagino que ela irá me apoiar. Assim como sempre quis ver minha mãe feliz, acredito que ela também vai querer me ver bem. Tenho medo das coisas que ela possa vir a escutar no colégio, as gracinhas dos colegas ou até mesmo dos pais dos alunos... Faço questão que ela cresça respeitando os outros, aceitando cada um a sua maneira.

Arquivo Pessoal
Tabs e o namorado André Vinicius Imagem: Arquivo Pessoal
A transição

"Até pela falta de conhecimento, antes de me assumir pensei muito se era isso mesmo, se eu gostaria do resultado. A gente tem medo, convive diariamente com histórias de pessoas que voltaram atrás na transição por falta de apoio, oportunidades de trabalho, mas percebi que sou homem mesmo, ainda que afeminado, e é dessa forma que quero seguir na minha vida. Usar cueca, por exemplo, me traz confiança, sei que sou eu mesmo quando estou com ela, ainda que por fora as pessoas me olhem como uma menina. É aquela história de que uma roupa de baixo mais bonita deixa a gente forte".

"E quero mudar o formato do meu corpo. Ainda não iniciei o processo de transição hormonal (ingestão de hormônios masculinos no caso), mas pretendo fazer isso em breve, assim como retirar as mamas. Atualmente, uso o binder [uma faixa responsável por esconder o volume dos seios]. Meu namorado sabe disso e promete me acompanhar. Isso é bom porque a gente precisa de alguém ao nosso lado".

"No entanto, não pretendo usar o packer [pênis fake], pois não sinto necessidade, não tenho problema com a genital em si. É só um detalhe mesmo. Além disso, quero ter mais um filho e, logo depois, remover o meu útero".

Arquivo Pessoal
Tabs e a filha Melissa de quase 3 anos Imagem: Arquivo Pessoal
 O mundo real

Afastado do mercado de trabalho desde 2014, por causa do tratamento da filha, que tem autismo, Tabs teme a saga na busca de emprego e os ataques transfóbicos. 

A gente vive em um mundo muito preconceituoso e a agressão física me assusta, morro de medo de apanhar, a gente não sabe os limites das pessoas. E se quiserem bater na minha filha? E no meu namorado? 

"As pessoas tendem a não lembrar da nossa existência e acredito que seja por isso que passamos por situações de constrangimento. Quando, por exemplo, vamos ao ginecologista e as pessoas da sala questionam o porquê de um homem trans estar ali, ou o próprio médico. Ou olhares feios no banheiro feminino, gente que fica na dúvida se chama de ele ou ela. Uma vez um motorista de aplicativo ficou falando sem parar sobre como meu nome era diferente e o fato de ele nunca ter tinha visto ninguém com essa denominação. Fiquei sem graça.

Existe uma cobrança para nos encaixarmos em estereótipos. Um homem cisgênero (indivíduo que se identifica com o seu gênero de nascença) de saia é aplaudido, um trans de saia ouve coisas tipo ‘mas tem certeza que é homem? Como vamos te levar a sério?’ Mas até parece que a gente escolhe passar por essas dificuldades e ter uma expectativa de vida tão curta por modinha, né?"
 

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