Comportamento

Por que nos importamos tanto com a sexualidade alheia? Veja 5 hipóteses

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Heloísa Noronha

Colaboração com o UOL

26/10/2017 04h00

Por que o fato de um galã famoso supostamente beijar um cara na praia incomoda tanta gente? Por que, embora tenham a opção de trocar de canal ou simplesmente não assistir, o público se irrita com um personagem trans na novela? E por que, embora sejam convictas de sua orientação sexual, de seus valores e crenças, as pessoas rechaçam quem tem escolhas diferentes, que não impactam suas vidas? Segundo especialistas, há muitas possíveis explicações para o incômodo que a sexualidade alheia provoca em alguns indivíduos. Cada caso é um caso, obviamente, mas as principais motivações costumam ser:

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1. Desejo de controlar os próprios pensamentos

Segundo o psiquiatra especializado em sexualidade Carlos Eduardo Carrion, de Porto Alegre (RS), muitas pessoas confundem o pensar, o desejar e o querer com o fazer, efetivamente. "Daí o pânico de alguma coisa 'proibida' passar por suas cabeças. Elas temem que o pensamento se transforme em algo mandatório, que as induza a fazer algo", diz. Como consequência, passam a rejeitar e atacar --celebridades, formadores de opinião, amigos, exposições de arte, campanhas publicitárias-- tudo o que possa estar induzindo a pensar em temas de cunho sexual ou por imaginar que pessoas próximas pensem, também.

2. Medo dos próprios sentimentos

Para o psicanalista Ernesto Duvidovich, diretor do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos), em São Paulo (SP), não são poucas as pessoas que, ao tentar abafarem fantasias e conflitos íntimos, acabam intensificando na visão do outro aquilo que não querem enxergar em si mesmas. "É a projeção: um processo inconsciente no qual nos livramos daquilo com o qual não conseguimos lidar através do julgamento do outro", explica. "Ao criticar, condenar e xingar quem tem a coragem de fazer, pensar ou expressar algo incômodo, a pessoa consegue aliviar conflitos internos", completa. "Por isso, o discurso de ódio é uma forma de manter o controle do próprio desejo", fala a psicanalista Letícia Lanz, mestre em Sociologia pela (UFPR) Universidade Federal do Paraná.

Já o psicólogo Roberto Rosas Fernandes, membro analista da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica) lembra que a homofobia, quando extremada, é um sinal claro de que a pessoa que detém o preconceito tenta camuflar sua verdadeira natureza. "Aqueles que condenam com veemência a homossexualidade alheia, e fazem disso um assunto, são indivíduos que recalcaram a própria homossexualidade. Lembramos que Freud disse: quando Pedro fala de Paulo fala mais de Pedro do que de Paulo", fala Roberto, que também é doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), onde ministra aulas no curso de Psicologia.

3. Inveja

"Muitos se importam com a sexualidade alheia por não poderem e temerem olhar a própria", diz Ana Cassia Maturano, psicóloga clínica e psicopedagoga formada pela USP (Universidade de São Paulo). "Há um quê de inveja, penso eu, principalmente porque a sexualidade ainda gera certa estranheza quando sai do âmbito das 'quatro paredes'. Inveja daquele que pode viver plenamente, mesmo que a duras penas, sua sexualidade. E ser feliz em como é".

De acordo com o psicólogo e terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade), esses desejos e emoções são reprimidos. "Quem mostra ser possível se expressar passa a soar como uma afronta. Então, para administrar melhor o sofrimento imposto por essa repressão, atacam as pessoas que representam esses desejos".

4. Educação repressora e/ou crenças religiosas

De acordo com Ana Cassia, a sexualidade ocupou por muito tempo a esfera do "não dito", seja em função de uma educação repressora ou por crenças religiosas. "Daí, sempre houve muita fantasia sobre o que há escondido. Só que aquilo que vai aparecendo também precisa de um tempo para ser acomodado em nosso imaginário e em nossa vida. Como o olho que tem que se acostumar à claridade, acomodando-se a ela, quando passamos muito tempo no escuro", afirma.

Ou seja, por maiores e mais efetivos que tenham sido os avanços em se tratando de sexo, nem todo mundo pôde ou quis acompanhá-los. Há resistência, ao mesmo tempo em que há muita luta entre pontos de vistas e estilos de vida diferentes.

"A sexualidade é assunto muito complexo, pois nem todos seguem o comportamento sexual idealizado por uma cultura de manutenção da família convencional", comenta Roberto. "Sexo distrai muito a imaginação. Submeter-se a uma crença, que não necessariamente precisa ser religiosa, pode ser política, social ou ideológica, é uma maneira de ser submetido. Se desde a infância a pessoa aprende a seguir regras, protocolos ou paradigmas, pode ter a sua capacidade erótica e de amar muito reprimida", opina Carrion.

5. Dificuldade de empatia 

"O que você aponta em demasia no outro, ou o que incomoda demais no outro, é um sintoma do que está mal resolvido em você", diz Matheus Arcaro, artista plástico, escritor e professor de Filosofia do Ensino Médio, também citando Freud. Para ele, muitas das pessoas que assumem o papel de defensoras da moralidade e dos bons costumes querem camuflar quem são de verdade.

"São aquelas que não estão nem um pouco preocupadas com a família ou com a educação das crianças, que volta e meia compartilham imagens pornográficas e piadas machistas no WhatsApp, que em casa desrespeitam o par", opina. "Falta educação e escopo cultural para saber diferenciar erotismo de sexo. Não à toa muita gente vem usando termos como pedofilia e gênero sem o menor conhecimento de causa."

Já Letícia encara qualquer movimento conservador envolvendo a igualdade de gênero como um medo extremo de "a mulher desbancar o homem". "A luta não é para preservar os valores da infância, cuidar das crianças ou coisas do tipo. A luta é para manter a mulher na cozinha e não ocupar mais lugares de fala".

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