Gravidez e filhos

Não é só no pós-parto: mulheres relatam drama da depressão na gravidez

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Depressão não se dá apenas no pós-parto quando o assunto é gravidez Imagem: Getty Images

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

30/10/2017 04h00

Depressão perinatal: o termo parece novo, mas basta uma busca rápida na internet, principalmente nos grupos de mães do Facebook, para identificar histórias aos montes. Ele se refere também ao diagnóstico da doença já na gravidez. E as chances de os sintomas se estenderem ao pós-parto, quando já costuma ser popularmente conhecida, são altas. Sub-notificado por conta do tabu que ainda idealiza a gestação como um momento mágico, onde não há espaço para a tristeza, o problema faz muitas mulheres sofrerem caladas.

Uma pesquisa da Fiocruz aponta que uma em cada quatro mães têm depressão após dar à luz. “Durante a gestação, a doença acomete, em média, 15% das mulheres como um todo e 40% daquelas diagnosticadas só no pós-parto”, destaca o psiquiatra Joel Rennó Jr, diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP. “E há um prejulgamento bastante severo em relação a elas. Muitas não encontram respaldo nem na família e amigos.”

Elas rejeitaram a gravidez

Esse é o caso da vendedora Carla*, 26, que deu à luz seu primeiro filho há seis meses. A gravidez veio inesperadamente, junto com uma rejeição absoluta. “Eu estava bem profissionalmente, não queria largar tudo e cuidar de um bebê”, conta ela, que passou a se sentir triste, estressada e emotiva. O rendimento no trabalho caiu e logo começaram os julgamentos. “As pessoas achavam um absurdo eu não estar feliz com a chegada de um filho. Teve amiga que me excluiu das redes sociais quando decidi desabafar sobre a minha insatisfação e falta do amor instantâneo. Cheguei a ser internada em um hospital psiquiátrico e, há cinco meses, estou em tratamento.”

A atendente de telemarketing Luciana*, 21, enfrentou situação semelhante. Seu filho veio ao mundo há seis meses sem qualquer planejamento. Desde o primeiro mês de gravidez, ela o rejeitou. A relação conturbada com o marido agravou o quadro. “Quando descobri que era um menino, meu mundo caiu. Eu queria uma menina. Não conseguia sair da cama, não aceitei aquela gestação nem por um minuto. Também fui bem negligente com os exames do pré-natal”, conta. Os parentes diziam que tudo passaria após o nascimento, que era frescura. “Só conseguia pensar que deveria ter abortado. Não acreditava na eficiência do tratamento, mas foi ele que me ajudou. Quando vi meu filho pela primeira vez, foi incrível.”

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Riscos e sintomas da depressão perinatal

Antecedentes pessoais e familiares de depressão são fatores de risco que podem ocasionar o aparecimento do quadro na gestação. Entram para a lista ainda alterações neuroquímicas, insegurança, experiências traumáticas --violência doméstica e sexual--, falta de planejamento e suporte, baixo status socioeconômico e até a pouca idade.

De acordo com a psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia da USP e diretora do Instituto Gerar, “a adolescência é uma crise maturativa, que exige uma consciência importante na hora de elaborar questões sobre o corpo, relacionamento e afins.” Quando a gravidez entra em cena então nessa fase, diz, é quase como carregar um peso extra. “É mais um momento de vulnerabilidade”, conta.

Tristeza, mudanças bruscas de humor, sensação de incapacidade, ideias suicidas e mal-estar físico são os sintomas próprios da depressão que aparecem também quando o diagnóstico é dado durante a gravidez. Em casos mais graves, podem acontecer crises psicóticas. “Ela se dá em diferentes graus, mas é sempre um quadro sério, que traz prejuízos para a mãe e para o bebê. São comuns os relatos de falta de desejo e vontade de viver por parte delas”, explica Vera. “A criança também pode deprimir mesmo que no início da vida, caso só tenha a companhia da mãe depressiva.” Interrupção da amamentação e descuido com relação à saúde do neném também podem acontecer.

Por isso, procurar um acompanhamento psicológico e psiquiátrico é fundamental. A cura é possível e, segundo Vera, vem acompanhada de um amadurecimento importante das mães. “Se não tratada, no período do puerpério –6 a 8 semanas depois do parto--, ela não conseguirá estabelecer um vínculo com o filho.”

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Chega de tabu

Para diminuir a incidência, Rennó acredita que é preciso dar fim à “ditadura da felicidade”, que ainda impera quando se trata da gestação e da maternidade. O amor entre mãe e filho, segundo ele, é um sentimento que precisa ser trabalhado, nem sempre é imediato. “Por isso, julgar e culpar uma grávida com depressão de maneira agressiva é terrível.” Vera emenda: “A ideia de que um filho preenche o homem e a mulher é uma idealização. Na depressão, o nascimento de um bebê implica em lutas, que podem gerar tristeza, por mais paradoxal que seja.”

Homens também têm!

O problema não se restringe a elas. Existem casos de pais que também enfrentam a doença, principalmente, após o parto da companheira. A diferença está nos sintomas. “Eles tendem a partir mais para a ação. Isso significa que podem começar a beber, usar drogas, se medicar, tomar decisões impensadas, pedir demissão, deixar a família”, explica Vera. “Normalmente, ela aparece entre o terceiro e sexto mês do filho.”

Entre as causas, destacam-se estresse associado à falta de equilíbrio entre a vida profissional e a dedicação paterna, desafios da relação conjugal, problemas em entender as necessidades emocionais da companheira e dificuldade em aceitar o período de resguardo.

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