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Pesquisadoras brasileiras discutem o que significa ser mulher na ciência

Divulgação
As pesquisadoras vencedoras do prêmio "Para Mulheres na Ciência 2017" Imagem: Divulgação

Mariana Araújo

do UOL, em São Paulo

17/10/2017 08h05

Conquistar espaços em mercados em que homens são maioria, receber o mesmo que colegas do sexo masculino, ser reconhecida pelo que faz: estes são alguns dos muitos desafios discutidos atualmente para mulheres de diferentes áreas. Mas, e ser mulher na ciência — o que significa atualmente?

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Para responder esta pergunta, o UOL falou com seis das sete vencedoras do prêmio "Para Mulheres na Ciência 2017", um projeto da L'Oréal e da Unesco em parceria com a Academia Brasileira de Ciências que estende incentivos financeiros para mulheres que desenvolvem projetos inovadores.

São elas: a matemática Diana Sasaki, que pesquisa a teoria dos grafos; a física Jenaína Soares, que estuda a estrutura de novos nanomateriais que podem ser aplicados em indústrias como a eletrônica; a química Rafaela Ferreira, responsável por projetos de tratamentos moleculares contra o Zika e a doença de Chagas e a bioquímica Fernanda Tonelli, ? que usa tilápias-do-Nilo como fábricas para a produção de substâncias como o hormônio do crescimento humano.

Ainda na área de ciências da vida estão a geneticista Marília Nunes, que investiga a diversidade genética do pirarucu para combater a extinção da espécie; e a fisiologista Pâmela Carpes, que pesquisa como o cuidado dos pais pode afetar a formação do cérebro.

Qual é a realidade da mulher na academia?

A bioquímica Fernanda Tonelli aponta a disparidade entre produção e cargos de destaque como um dos maiores problemas para mulheres cientistas. "Segundo a Elsevier, as mulheres no Brasil já produzem quase a metade dos artigos científicos publicados. No entanto, se observarmos (especialmente no campo das ciências exatas), o número de pesquisadores do sexo feminino em centros de pesquisa e instituições de ensino superior, notaremos que esta produção ainda não se reflete na composição de quadro de funcionários".

"Ainda há poucas mulheres em posições de liderança em seus departamentos e em associações científicas", concorda Jenaína Soares. "Não é muito fácil nomear muitas pesquisadoras bolsistas de pesquisa 1A no CNPq (a posição mais alta), o que gera estranheza e que sem dúvida devemos trabalhar para mudar. Uma ocupação feminina destes espaços é importante para existir representatividade em todas as áreas científicas".

Para ela, as regras das instituições que oferecem bolsas e vagas para pesquisadores também não colocam homens e mulheres em condições de igualdade na concorrência ao desconsiderarem a jornada dupla que muitas cientistas encaram por serem mães. "Editais não levam em conta o fato de que, durante a licença-maternidade, pode ser complicado manter produtividade científica para se competir com os homens. Ou mesmo depois disso. No geral, a mulher continua com a maior parte da responsabilidade com o filho."

Diana Sasaki, matemática, concorda e aponta este como a principal dificuldade de sua carreira na ciência. "Meu filho tem um mês e meio de vida e estou sentindo que ser mulher traz o grande e principal desafio de conciliar a maternidade com as atividades de trabalho. Para pesquisar, temos que ter dedicação, atenção e tempo, tudo que um bebê também necessita".

"Não temos políticas que prevejam esta situação", diz Pâmela Carpes. "Experimentos nem sempre têm horários muito amigáveis. Viajar para congressos e eventos e ficar longe do filho pequeno por dias seguidos também não é fácil, mas acho que o mais difícil é ser julgada pelas escolhas que fazemos. Sempre procurei provar que é possível ser uma boa mãe e uma boa cientista, mostrar que não são coisas incompatíveis".

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Batalha diária contra (pré) conceitos

Os julgamentos ainda vêm acompanhados de preconceitos. "Em uma visita de campo, um colega de trabalho sugeriu que eu fosse com roupas mais masculinas, caso contrário o produtor não acreditaria no que eu iria falar", relembra Marília Nunes. "Em outra situação, em uma reunião de apresentação dos meus projetos, me perguntaram se seria somente eu que estava à frente, coordenando as equipes. Em ambas as situações, respondi que o conhecimento, comprometimento com o trabalho e a seriedade não estão restritas a roupas, gênero ou idade".

Rafaela Ferreira enxerga dificuldades particulares para quem é uma jovem pesquisadora. "Para conduzir projetos, é preciso obter financiamento para compra de equipamentos e reagentes. Como a decisão de quais projetos serão financiados depende do currículo dos pesquisadores, há uma tendência maior de que professores já estabelecidos, com mais tempo de carreira, sejam contemplados". Ou seja, a tendência é favorecer quem já está no mercado — que ainda é predominantemente masculino.

Qual então o principal passo que devemos dar para que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades? "Precisamos de mais divulgação científica, encorajar as jovens a trabalhar com ciência. O aumento da participação feminina na ciência tende a servir como exemplo. [Precisamos] encorajar cada vez mais mulheres a seguir esta carreira", diz Rafaela.

Apesar dos obstáculos, Jenaína se mantém positiva."Ser mulher e cientista é trabalhar com o que me move, satisfeita em acordar todo dia e me esforçar para entender algo novo. É fascinante se deparar com o momento da descoberta, em que você confronta hipóteses com as predições teóricas e dados experimentais, tudo funcionando de uma forma lógica. A orientação de alunos também é um aspecto muito gratificante. Você tem a oportunidade de percorrer diferentes caminhos com outras pessoas e aprender junto, passando o gosto pela ciência para frente", conclui.

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