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Quem é Bianca Dias, a brasileira que faz parto humanizado em zona de guerra

Acervo Pessoal
Bianca durante sua missão no Quênia Imagem: Acervo Pessoal

Mariana Araújo

do UOL, em São Paulo

15/11/2017 04h00

Síria, Iraque, Quênia, Etiópia, Ucrânia, Afeganistão e África do Sul. Em quatro anos, Bianca Dias Amaral, de 34 anos, viu mais do que muita gente vê em uma vida inteira: ela embarcou em sete missões humanitárias em que conheceu pessoas e realidades muito diferentes da sua, testou os próprios limites, treinou equipes e, sobretudo, encarou o desafio de levar o parto humanizado a regiões remotas do globo.

Conheça a história da obstetriz da ONG Médico Sem Fronteiras que salvou vidas de milhares de mulheres e seus filhos seja supervisionando ou realizando partos em zona de conflito.

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O embarque na carreira de quem ajuda a dar à luz

Bianca achava lindo ver mulheres grávidas desde criança, fazia a mãe parar no trânsito quando via uma. "Mas eu demorei muito tempo para entender o que eu queria. Já tinha 21 anos". A decisão de ajudar crianças a vir ao mundo só veio por influência da mulher de um primo que trabalha com parto domiciliar nos Estados Unidos. Assim, ela embarcou no curso de Obstetrícia logo na primeira turma formada pela Universidade de São Paulo. Ainda na faculdade, ela se envolveu com os partos humanizados.

"Passei por hospitais diferentes durante meus estágios. Vi duas realidades. Em um hospital geral, vi o que a gente chama de violência obstétrica, em que vários procedimentos invasivos são feitos sem o consentimento da mulher, sem que ela tenha informação", relembra.

"E passei por lugares como Amparo Maternal [em São Paulo], onde há assistência: doula voluntária, massagem na bola, troca de posição métodos não farmacológicos de combate à dor. E ver como isso impacta a pessoa que está em trabalho de parto. Apesar de ter dor, o parto não precisa ser sofrido. Quando você aprende o melhor jeito, não quer voltar atrás". 

A chegada ao Médico Sem Fronteiras

Com pai médico, Bianca cresceu lendo as histórias de profissionais de saúde que se dedicavam a missões humanitárias. Inspirada por esse tipo de narrativa, de quem ajuda aqueles que mais precisam "no terreno", como ela diz, a obstetriz decidiu que gostaria de se juntar à instituição assim que se formou. "Resgatei meu sonho de criança e mandei meu currículo".

Mas uma resposta negativa adiaria o sonho um pouco mais: "Me disseram que eu precisava ter uma experiência profissional de, no mínimo, dois anos. Então, trabalhei por dois anos no Brasil em hospitais públicos e particulares. E aí passei". O ano era 2013.

A primeira missão de Bianca foi na Síria, onde ficou por três meses. Lá, "Foi onde aprendi mais. Era o meu primeiro projeto e a primeira vez em que executei técnicas novas, que jamais tinha usado no Brasil. Entre eles, como fazer o cuidado pós-aborto incompleto, a aspiração manual intrauterina. Ou o parto instrumental, com vácuo-extração. Foi muito marcante", lembra.

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Bianca na maternidade em que trabalhou no Quênia Imagem: Acervo Pessoal

Segundo Bianca, entre estas experiências de aprendizado estavam algumas às quais ela não teria acesso no Brasil. "Eu me lembro do meu primeiro parto pélvico, que é quando o bebê nasce primeiro com o bumbum e não com a cabeça. É um parto que não se faz no Brasil, na maioria dos países, aliás. [A recomendação é a cesariana nestes casos]. Mas a gente sempre opta por fazer do parto pélvico um parto normal lá no MSF". 

"Era a minha primeira semana na Síria. Quando a gente chega existe um número de posições de expatriados para cada projeto e eu cheguei para preencher a vaga de uma obstetriz dinamarquesa que estava indo embora. Durante aquela primeira semana, ela me explicou coisas básicas sobre o atendimento, a requisição de medicamento, o gerenciamento. Mas aconteceu este parto pélvico na madrugada. Fomos de carro, o hospital era pertinho, mas já estava perto [de nascer]. Eu só pensei: 'como vamos fazer?'. Era um bebê enorme, de 3,7 kg, e foi muito tranquilo. Hoje somos muito amigas e essa experiência me marcou muito. Eu pensava que jamais teria feito isso se não tivesse vindo trabalhar no Médico Sem Fronteiras".

Dali em diante, Bianca se viu fisgada de vez pelas missões. "No Brasil, tem muito procedimento que é de médico, mas lá, é das obstetrizes. Vicia um pouco essa autonomia que a gente ganha. É difícil voltar e ter que lidar com uma autonomia menor. Por isso, na minha primeira volta ao Brasil em 2015, não consegui ficar". 

Os desafios de estar "no terreno"

Antes deste retorno ao Brasil, em 2015, ela ainda encararia quatro outras missões: Iraque, onde passou um mês; Quênia, onde esteve por nove meses; Etiópia, país onde trabalhou em um campo de refugiados sul sudaneses por três meses e outros três na Ucrânia, em plena revolução.

"Na Síria e no Iraque, havia questões de segurança. Os países estavam em situações instáveis, mas acabei não sentindo muito porque fiquei pouco tempo", conta. Nesta época, o maior impacto na vida da obstetriz foi o da sua própria dedicação. Totalmente envolvida no projeto, esqueceu de cuidar de si e perdeu 8 kg em apenas três meses na Etiópia. "Era um calor de 45ºC! Você tinha comida, mas não tinha fome. Fiquei bem fragilizada fisicamente".

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No campo de refugiados na Etiópia Imagem: Acervo Pessoal

"Quando saí de lá, não percebia que [meu trabalho] estava afetando minha saúde porque eu estava bem psicologicamente. Eu me coloquei logo à disposição para outro projeto e fui para a Ucrânia. Era uma região de conflito, em um frio de -20ºC, um lugar extremo. Fiquei doente: tive uma infecção na pele e comecei a ficar rouca demais".

Com a saúde debilitada, Bianca desembarcou no Brasil pela primeira vez em dois anos. "Tive que tomar antibiótico por três meses. Senti que estava negligenciando o meu corpo e, por isso, resolvi parar e cuidar de mim. Fiquei aqui por nove meses, período em que trabalhei na Casa Ângela, uma casa de parto humanizado em São Paulo. Foi ótimo, mas eventualmente comecei a sentir saudade da adrenalina, de sentir que estou fazendo a diferença". E assim, ela subiu no avião mais uma vez, com destino ao Afeganistão.

A rotina de quem trabalha em zona de guerra

Com cinco missões na bagagem, Bianca se tornou diretora de uma maternidade em Cabul, capital do país. Ali, as responsabilidades seriam muito maiores: "Eram quase 2 mil partos por mês lá, a gente chamava de fábrica de bebês. Eu coordenava uma equipe de 70 parteiras e era responsável pelo treinamento delas, que já são muito boas e fazem pelo menos 5 a 10 partos por plantão. Eu tinha que atualizá-las sobre novas práticas e ter certeza que estão seguindo os protocolos do MSF, que geralmente têm a ver com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Nem sempre é fácil para elas fazerem isso porque estão acostumadas com o protocolo local, que é diferente. Eu tinha duas supervisoras para elas, que também tinha que treinar". 
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Com a colega Andreza, obstetriz brasileira que era parte da mesma missão em Cabul Imagem: Acervo Pessoal
Esta experiência como professora deu à obstetriz uma nova perspectiva do trabalho em campo. "Tem sempre dois lados. Gostava de sentir que estava compartilhando o que eu tinha aprendido, porém, às vezes, me frustrava porque por não conseguir passar o conceito de humanização do parto. Uma ou outra acaba entendendo, aderindo e mudando — e é lindo de ver —, mas uma das partes mais difíceis era lidar com a falta de empatia entre mulheres da mesma comunidade", observa. 
 
"Demorou muito tempo para eu entender, como no Afeganistão, que não era falta de empatia. Na verdade, elas tinham aprendido a viver daquela maneira, com violência dentro de casa", explica. A violência, aliás, era se tornou uma preocupação mais constante para Bianca justamente nos nove meses em que esteve no Afeganistão. Ali, a possibilidade de um tiroteiro ou de um sequestro era mais palpável.
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Praticando ioga em casa, em Cabul, no Afeganistão Imagem: Acervo Pessoal
"Lá, eu vivia mais fechada. No dia em que cheguei, houve um tiroteio por meia hora. Me joguei no chão, morrendo de medo. Depois de dez minutos, meu chefe mandou uma mensagem para todo mundo avisando que aquele era um 'happy shooting' [salva de tiros]: o time de críquete do Afeganistão tinha acabado de ganhar do da Índia. Eu achava que a cidade estava vindo abaixo, mas eles só estavam comemorando o jogo! [risos]".
 
Apesar de ter sido só um susto, o clima local era responsável por uma série de medidas de seguranças restritivas para ela e outros membros da equipe, com quem dividia a casa. Saídas; só de carro — e de casa para o hospital. Mesmo as idas ao supermercado, no mesmo quarteirão, também deveriam ser feitas com o veículo. "A gente se dava muito bem, todo mundo na casa. Eu cuidava do jardim. Mesmo assim, tinha dias que era bem difícil não ter liberdade para sair, dar uma volta".
 
"O jeito que encontrei para lidar com isso era fazer ioga praticamente todos os dias e ter um bom relacionamento com os meus colegas. Tive a sorte de ter uma obstetriz brasileira trabalhando comigo, uma amiga com quem já tinha trabalhado junto no Brasil. Também tinha uma academia no porão, com esteira. Lá eu corria, com alguma frequência. Menos do que eu deveria [risos]".

A violência contra a mulher no cotidiano

Depois da passagem pelo Afeganistão, Bianca achava que não voltaria mais ao Médico Sem Fronteiras. Afinal, o plano inicial era trabalhar apenas um ano fora do Brasil, para conhecer outra realidade, e o prazo que deu a si mesma já havia se esgotado há tempos. Tirou umas férias. Mas logo se viu em campo novamente, desta vez na África do Sul, em janeiro desde ano.

"A África do Sul foi o projeto mais difícil em que já trabalhei, mas no contexto mais fácil: quase não tinha nenhuma questão de segurança. Eu podia levar uma vida normal, ia à academia, mas o trabalho era muito complicado. Eu já não gerenciava uma maternidade, mas sim uma clínica de cuidado para vítimas de violência sexual e doméstica". 

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Com sua equipe na clínica de atendimento à vítima de violência sexual na África do Sul Imagem: Acervo Pessoal

Bianca já havia lidado com vítimas de violência no Quênia, mas lá também cuidava da maternidade. Na África do Sul, ela teve contato de perto com as vítimas de violência — e com um sistema que agredia ainda mais mulheres.

"Foi uma experiência muito pesada porque o aborto é legalizado lá: vítima de estupro ou não, a mulher tem o direito a abortar. Eu via muitas vezes a dificuldade do sistema de oferecer isso, mesmo sendo lei, por causa dos posicionamentos pessoais da equipe, que entravam na frente dos direitos das mulheres".

"A gente tinha uma parceria com o Ministério da Saúde e as coisas não podiam andar só no ritmo do MSF, tinha também o lado do governo. Não consegui esperar o tempo [da missão, que era de 1 ano] e lidar com a burocracia. Eu queria fazer tudo que dava pra gente fazer, tentava oferecer não só o cuidado às vítimas de violência, mas também o aborto seguro e a gente não conseguia com o aval do Ministério. Fiquei muito frustrada e saí depois de cinco meses por isso".

As histórias que traz na bagagem

Nestes quatro anos, alguns rostos e histórias marcaram a vida de Bianca. "Teve uma mulher na Síria, ela era esposa de um dos nossos motoristas. Ele sempre perguntava se eu a tinha visto durante a semana [durante] o pré-natal. Ela já tinha feito quatro cesarianas, era o quinto bebê e, com certeza, seria outra cesariana. Eu via que ele tava ficando muito nervoso pro parto, perguntava se eu ia indicar para fazer a cesariana e eu explicava que ainda estava prematuro, que tinha que esperar. Ela acabou indo para o hospital várias vezes, por causa da pressão".

No meio de uma noite, no entanto, a paciente acabou entrando em trabalho de parto mesmo antes da hora. "Neste caso, era melhor não ter entrado por causa da possibilidade de ruptura uterina. Eu disse para a minha equipe: 'o bebê vai nascer, ainda está prematuro, mas não muito, com 8 meses e meio'. Avisei que ia ficar do lado de fora, para dar mais autonomia para elas".

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Com um de seus pacientes em Cabul Imagem: Acervo Pessoal

Este era o procedimento padrão para Bianca. Mas ela tinha uma noite nada comum pela frente. "Logo a cirurgiã gritou para eu entrar para ajudá-la. Ela disse que tinha um problema e, quando olhei, a placenta estava saindo antes do bebê e ela não conseguia tirá-lo. Eu nunca tinha colocado a minha mão na cavidade abdominal de uma pessoa antes mas, em duas, conseguimos. Foram dois minutos que pareceram duas horas".

"O bebê nasceu bem cansadinho, tivemos que reanimar. Achei que ele não ia sobreviver, mas bebês são muito resilientes. Ele sobreviveu, mas quando penso, fico com o joelho meio mole". Segundo Bianca, os partos do tipo cesariana são maioria na Síria e não havia muitas opções para uma mulher com complicações como as dela.  [Se o projeto não estivesse lá], ela acabaria morrendo em casa ou até achar o próximo hospital, que é na Turquia. É nessas horas que você se vicia no trabalho, ao ver o quanto é gratificante e como você consegue mudar a vida das pessoas".

Desde agosto, Bianca está de volta ao Brasil e se prepara para fazer parte de uma equipe de parto domiciliar em Ubatuba. Mas ela não descarta a possibilidade de voltar às missões. "Quero me disponibilizar a passar um a dois meses por ano [lá fora], fazendo treinamento de equipe ou missões curtinhas. Hoje o meu modelo perfeito de vida seria este. O duro de estar sempre fora é perder a vida do Brasil: ela continua passando e você está longe dos seus amigos, sua família", conclui.

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