Política

Eleonora Menicucci: "Lula não teria sido derrubado. O golpe é sexista"

Natacha Cortêz

Do UOL, em São Paulo

21/11/2017 04h00

“O que a vida quer da gente é coragem.” Eleonora Menicucci, 73, cita Guimarães Rosa para tentar traduzir em palavras os últimos 60 anos de sua vida. Mineira de Lavras, ela começou no ativismo político ainda no colégio, quando participou da campanha presidencial da chapa Lott-Jango, em 1960. Presa política durante a ditadura militar, ela dividiu a cela com a ex-presidente Dilma Rousseff, de quem se tornou amiga íntima. Em 2012, Eleonora tomou posse como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres.

Os feitos do mandato da dupla Menicucci/Rousseff receberam elogios e críticas. A descriminalização do aborto, pauta reconhecidamente levantada pelas duas antes de estarem no governo, não teve avanço. Em contrapartida, ela se orgulha de conquistas como a lei do feminicídio (2015) e a Casa da Mulher Brasileira, projeto de acolhimento a vítimas de violência. Eleonora esteve como ministra até Outubro de 2015, quando saiu por conta do impeachment de Dilma. “Nunca imaginava que viveria outro golpe. Que outra vez estaria no centro do poder e ao lado dela. Sendo punidas as duas. Ela como eu, e eu como ela, lutamos pela democracia e pelas liberdades.”

No ano passado, seu nome voltou às atenções graças a Alexandre Frota. O ator a processou por calúnia depois de uma declaração que Eleonora deu à coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo. Indignada por José Mendonça Filho, ministro da Educação, ter convidado Frota para conversar sobre o Escola sem Partido, ela disse que lamentava que a primeira pessoa que o ministro quisesse ouvir fosse “um senhor que faz apologia ao estupro”. Um ano antes, o ator falou no programa "Agora é tarde" (Band) que havia estuprado uma mãe de santo até ela perder os sentidos. A ex-ministra ganhou a causa em segunda instância, em 24 de Outubro deste ano.

Nesta entrevista, Eleonora explica o processo que sofreu, fala dos desafios que teve como chefe do primeiro ministério de mulheres do País e do que viveu na clandestinidade e na prisão durante a ditadura militar.

UOL: “Abortista terrorista amiga de Dilma Rousseff, Eleonora deixou de me pagar graças ao juiz ativista gay militante do PT”, twitou Frota. Por que figuras radicais como ele têm tanta voz ao ponto de ser ouvido pelo ministro da Educação?
Eleonora Menicucci: Vivemos tempos gravíssimos, de violência banalizada e radicalismo. Isso diz muito. Além do mais, esse processo contra mim foi um processo de ódio. Fui julgada e sentenciada não foi só pela minha declaração ao jornal, mas pelo conjunto da minha obra.

Alexandre Frota tentou reconciliação, dizendo que se a senhora pedisse desculpas públicas, tiraria o processo. Por que não aceitou?
Ele não me conhecia. Jamais rasgaria minha história pedindo desculpas a ele. Minha vida tem sido pautada na luta pela democracia e pelos direitos das mulheres. Quando disse que não concordava, eu estava lutando pelas brasileiras. Hoje, a vitória desse processo não é minha, é das mulheres.

Carine Wallauer/UOL
Eleonora em sua casa, em São Paulo Imagem: Carine Wallauer/UOL

Secretaria de Política para as Mulheres e Dilma

O governo Dilma foi criticado, mesmo entre feministas, por não conseguir avançar com pautas fundamentais para as mulheres, como o aborto. O que aconteceu com esse assunto, especificamente?
Aborto era um tema absolutamente sem diálogo com o Congresso Nacional. E o que a presidenta Dilma não fez foi comprar deputados e senadores para passar as pautas dela. Essa legislatura que acaba em 2018 é a mais reacionária, a mais conservadora, a mais fundamentalista. Nela, aborto é intratável.

Quais outras pautas eram intratáveis?
Também não conseguimos passar uma lei que regulamentasse salário igual e condições de trabalho igual entre homens e mulheres. Os representantes do mercado não deixavam. O patriarcado não está interessado na autonomia econômica das mulheres.

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A aprovação da PEC-181, que pode vetar o aborto em qualquer caso, te preocupa?
A lei brasileira sobre aborto já é restrita, a sanção dessa PEC seria um retrocesso para as brasileiras e um retrocesso para a democracia. Faço um apelo aos deputados e deputadas que são favoráveis a essa PEC que no plenário pensem em suas filhas, que pensem em qualquer mulher próxima que poderia precisar de um aborto. Que pensem na quantidade de mulheres que são estupradas neste país e na quantidade que morre por um aborto mal feito. Infelizmente não posso dizer que sou otimista. Tudo neste momento do país é possível. Todos os retrocessos inclusive.

O que a gente como nação deve fazer para termos mais mulheres na política?
A primeira questão é mudar essa cultura machista que existe dentro dos partidos e dos movimentos sociais. Porque as mulheres estão em todos os lugares sim, mas dificilmente chegam aos postos de poder. Depois, temos que falar da divisão sexual do trabalho. Enquanto não houver uma mudança definitiva na divisão sexual do trabalho - inclusive dentro de casa! - não existe a possibilidade de haver uma democracia real. Sem a democracia de gênero e sem igualdade racial também não há. Aliás, não há democracia em qualquer país se as mulheres não forem sujeitas das suas próprias escolhas.

A deputada estadual Manuela D’Ávila foi oficializada como pré-candidata à presidência pelo PCdoB. Você diria para ela levar a descriminalização do aborto para a campanha dela?
Sim, e diria para todos os candidatos que é hora deles assumirem essa pauta. Mulheres não podem continuar morrendo por fazerem aborto. O estado é responsável por essas mortes. A descriminalização é uma questão de saúde pública! Mortes por aborto representam uma epidemia no país.

Se convidada novamente para ser ministra ou ocupar outro cargo político, a senhora iria?
Não respondo no "se". Porém, no ponto de vista de cargos, já ocupei todos que achei que devia. Ocupar um cargo público agora não é uma prioridade em minha vida.

Como aconteceu o convite para ser ministra da SPM?
Em 2012, a então ministra Iriny Lopes saiu para ser candidata à prefeita em Vitória e a presidenta Dilma me chamou. Eu falei que não queria, que queria ser candidata à reitora... Na época eu era pró reitora da UNIFESP.

E como ela te convenceu?
Disse: “Sou sua chefe, você é funcionária pública federal, não pode negar”. Mas a verdade é que, olho no olho, realmente eu não tinha como negar. Era uma questão de lealdade e solidariedade, e eu queria que o governo dela desse certo. Além disso, ao me chamar ela mostrava que estava do lado das mulheres.

Na sua posse como ministra, surgiram notícias dizendo que a senhora era bissexual e amante de Dilma. Alguma era verdade?
Eram tentativas de me desmoralizar. De descredibilizar a ela e a mim. Dilma não me chamou porque era minha amiga ou amante, nem porque fomos presas políticas juntas, mas pelo meu currículo. E tem mais, Dilma sofreu demais com sexismo. Diziam que ela era muito do mundo. Semanalmente eu recebia denúncias de ataques sexuais à ela. Como aquele do adesivo, dela de pernas abertas com a bomba de gasolina.

Carine Wallauer/UOL
Eleonora Menicucci: “Dilma foi revolucionária, chegou a 13 ministras” Imagem: Carine Wallauer/UOL

O que significa o fim da SPM como ministério?
Significa que disseram que as mulheres têm que voltar para o tanque e pro fogão, de onde nunca deveriam ter saído. Temer já declarou no último dia 8 de Março, com mais de 500 mil mulheres nas ruas do país, que somente nós somos capazes de indicar "desajustes" de preços no supermercado. Não tenho dúvidas: mulheres não são prioridade para esse governo. Prioridade para esse governo é comprar os deputados.

Há quem diga que Dilma sofreu impeachment por ser mulher. A senhora acredita nisso?
Com todo o respeito, se fosse o Lula ele não teria sido golpeado. O golpe é sexista, parlamentar, capitalista, internacional, midiático e judiciário. Dilma não tinha crime de responsabilidade. Eles não admitem serem governados por uma mulher. Do fato de ela ser ela. Uma mulher que subiu a rampa com a filha. E no segundo mandato, subiu sozinha. Ela não tinha marido, ela não tinha companheiro. A eleição da presidenta Dilma foi revolucionária, uma quebra de paradigmas. Ela chegou a ter 13 ministras. Hoje os ministérios são ocupados só por homem velho, rico, branco, barrigudo e latifundiário.

Gravidez na clandestinidade e prisão na ditadura

Em 69, Eleonora fica grávida e na clandestinidade dá a luz à Maria, sua primeira filha. Em 71, é presa pela OBAN (Operação Bandeirantes). Maria tinha um ano e dez meses.

Como um bebê nasce na clandestinidade?
Tive minha filha na Maternidade São Paulo, com profissionais que sabiam quem eu era. Foram companheiros que fizeram meu parto, uma cesariana. Entrei na maternidade como filantropia.

Ser mãe na clandestinidade deve ser duplamente angustiante.
Angustiante. Angustiante. Angustiante. Você mal tem sua própria vida, e ainda tem que cuidar de um bebê. Eu a levava para todo lugar comigo, inclusive para as reuniões do partido. A gente morava na aparelha, a casa da organização. A única vez que me separei dela foi pra ir ao dentista. Naquele dia fui presa em São Paulo, em junho de 71. Meu ex-marido tinha ido pra Uberaba no enterro da mãe. Ele foi preso lá dias depois. Minha filha ficou com uma tia, mas sob controle deles. Eles sabiam onde ela estava.

Você testemunhou no DOI-Codi o assassinato de um jornalista. Conta essa história?
O assassinato do Luiz Eduardo da Rocha Merlino, um jornalista que foi preso chegando da França. Ele foi barbaramente torturado e eu vi. Estávamos os dois na sala de tortura. Eu na cadeira do dragão e ele no pau de arara. Ele não morreu aquela hora, teve um sangramento e foi para uma cela isolada e deixado lá. Coloquei como questão de honra pra minha vida fazer essa denúncia. Depus em todos os fóruns possíveis, em todas as comissões e no Congresso Nacional. A família dele não queria dinheiro, queria a responsabilização do Estado pelo assassinato. Conseguiram.

A prisão te deixou traumas?
Fui psicanalisada e a terapia ajudou. Trabalhei muito pela minha saúde mental. Mas durante anos depois da prisão fiquei pensando que deveria ter morrido. Porque é duro continuar. Ficar grávida foi importante nesse processo.

Sua segunda gravidez foi planejada então?
Sim, quis ter outro filho. Era uma ressignificação da minha possibilidade de maternidade. Eles diziam na tortura que por eu ter sido presa tendo uma filha, por eu ter priorizado a luta política, eles iam acabar com a minha condição de ser mãe. Me torturavam na vagina, choque elétrico e tudo mais. E torturaram meu marido barbaramente. Mas a ameaça de matar a criança só faziam a mim. Por quê? Por causa do patriarcado. Por causa da mulher mãe. A mulher mãe no patriarcado não podia estar ali. Era uma punição extra.

Carine Wallauer/UOL
Foto 3X4 de Eleonora em 1971, quando foi presa Imagem: Carine Wallauer/UOL

Na cadeia é que a senhora conheceu a Dilma?
As pessoas acham que sim, mas nos conhecemos antes, nos anos de militância em Belo Horizonte. Nos reencontramos na torre das donzelas [uma masmorra que abrigava presas políticas durante a ditadura militar], no presídio Tiradentes.

Você e ela são amigas até hoje?
Muito amigas, viajo frequentemente com ela.

Como ela está?
Muito bem, firme. Segura da potencialidade dela como mulher e liderança. E segura de que as mulheres têm sido determinantes na luta contra o golpe, que está só no meio. O golpe não foi retirado ainda. Ele foi contra um projeto de inclusão social, de soberania nacional, de desenvolvimento. Um projeto onde as mulheres, a população negra e a população LGBT tivessem lugares de sujeitos políticos. Por isso todas as perdas de direitos. O golpe também foi para impedir a candidatura do Lula. Ou você acha que em 2018 vão deixar Lula tentar a eleição?! Estou preocupada. É uma caça desigual.

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