Vida saudável

Posso doar meu rim para um amigo, como aconteceu com Selena Gomez?

Reprodução/Instagram
Selena Gomez e a amiga Francia Raisa, que lhe doou o rim Imagem: Reprodução/Instagram

Vivian Ortiz

Do UOL, em São Paulo

15/09/2017 17h27

Selena Gomez surpreendeu os fãs, na última quinta-feira (14), ao usar seu Instagram para explicar o motivo de ter sumido da mídia nos últimos tempos: a cantora estava se recuperando de um transplante de rim recebido para tratar o lúpus --doença autoimune da qual ela revelou sofrer em 2015.

Tem alguma dúvida sobre a saúde do seu corpo? Mande sua pergunta para o e-mail pergunteaovivabem@uol.com.br que nós encontraremos os melhores especialistas para respondê-la.

O órgão foi doado por uma amiga, a atriz Francia Raisa. "Ela me deu o maior presente e sacrifício ao doar o seu rim para mim. Eu fui incrivelmente abençoada. Eu te amo muito, minha irmã." Mas essa doação seria possível se a história tivesse acontecido no Brasil?

De acordo com a cartilha "Manual do Transplante Renal", da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), qualquer pessoa adulta --acima de 21 anos-- que seja saudável, tenha função renal normal e não apresente, durante extensa e minuciosa avaliação médica, evidências de risco de doença renal ou de outros órgãos vitais, pode ser doadora.

Mas existem outras questões...

Shutterstock
Imagem: Shutterstock

Doar o próprio rim para alguém com quem não se tem nenhum parentesco não é tão simples assim quanto parece ser o caso. No Brasil, é necessário uma autorização judicial para ir em frente com a cirurgia.

Isso porque a legislação que rege o transplante renal entre pessoas vivas que não sejam parentes de sangue (exceto cônjuge) requer autorização do Comitê de Ética do hospital onde será realizada a cirurgia. Também é necessário que um juiz de direito e a Central de Transplantes do Estado liberem o procedimento.

Luciane Mônica Deboni, coordenadora de transplantes da Fundação ProRim, explica que, antes disso, o candidato vai ser avaliado do ponto de vista clínico: a compatibilidade entre os dois é checada, assim como se o receptor não possui anticorpos pré-formados contra as células desse potencial doador. As avaliações servem para prever quais as chances de sucesso do transplante. Caso o procedimento seja mesmo viável, aí entra a questão judicial.

Em uma sociedade tão desigual quanto a nossa, onde existem pessoas vivendo em um estado de vulnerabilidade social muito grande, se aceitássemos que essa doação fosse feita de uma maneira mais liberal, abriria a possibilidade para algum tipo de comércio de órgãos, algo que não pode acontecer em hipótese alguma", diz Luciane.

É altruísmo mesmo?

Getty Image
Imagem: Getty Image

Durante o processo de avaliação clínica, tanto o candidato a doador quanto o receptor são avaliados por uma equipe multidisciplinar, que inclui médicos, enfermeiros e psicólogos, que vão conversar com essa dupla em conjunto --e em separado-- na tentativa de entender qual seria a real motivação.

"Muitas vezes, é nessa fase em que se detecta algum tipo de comércio, que não necessariamente é dinheiro, mas pode ser uma promessa de negócio ou mesmo ajuda para a pessoa comprar uma casa. Isso é proibido e, se for detectado, o procedimento não acontece", afirma Luciane.

De acordo com Roberto Manfro, presidente da ABTO, os números de transplante renal com doador vivo que não é parente --e não cônjuge-- tem se mantido estável nos últimos anos no país, representando cerca de 5% a 6% do número de transplantes com doadores-vivos.

E como fica a vida?

Reprodução/Instagram
Selena Gomez mostra cicatriz após transplante Imagem: Reprodução/Instagram

Deu tudo certo e a cirurgia aconteceu. A rotina volta ao normal tanto para doador quanto receptor, certo? Não é bem assim, de acordo com Luciana. Ela explica que quem possui uma doença renal crônica vai continuar em tratamento. O transplante não é a resolução definitiva de seus problemas. Isso porque o organismo da pessoa vai tentar "destruir" esse novo rim.

"Para que isso não aconteça, será necessário tomar medicações imunossupressoras para sempre. Elas diminuem as defesas, permitindo que o organismo reconheça aquele órgão transplantado, evitando o risco de uma rejeição. Mas isso acaba tornando o receptor mais vulnerável a infecções", explica a médica. De forma geral, a pessoa ganha uma melhor qualidade de vida, por não precisar mais fazer hemodiálise, por exemplo. Mas terá de conviver com os efeitos colaterais da medicação.

Tem data de validade

Outra questão é que, de acordo com Luciane, o transplante tem uma meia-vida média em torno de 12 a 15 anos. Após esse período, 50% dos pacientes que foram transplantados já vão ter perdido esse rim --a outra metade dessas pessoas ainda estará com o órgão funcionando. Apesar disso, existem pacientes que fizeram transplantes há 20 ou 30 anos e continuam bem.

"Isso não significa que a pessoa vai morrer ao fim desse período, mas há a possibilidade dela precisar voltar para a hemodiálise e, eventualmente, fazer um segundo ou até o terceiro transplante", diz a especialista.

E para quem doa?

 

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on

Francis, a amiga de Selena, poderá voltar a fazer suas atividades normais poucas semanas após a cirurgia. Recomenda-se apenas a realização de exames anuais para avaliar as condições gerais de sua saúde e do rim remanescente. Além disso, assim como qualquer um de nós, ela terá de adotar uma dieta saudável e balanceada que evite sal, açúcar e gorduras em excesso, mantendo a boa hidratação e buscando manter o peso ideal.

O presidente da ABTO ressalta ainda que a doação implica em um aumento no risco de ter insuficiência renal ao longo da vida. Essas pessoas podem ter pressão alta quando ficarem mais velhas ou apresentarem um excesso de proteína na urina, o que leva o corpo a reter fluídos e sódio, causando inchaço nos tornozelos e abdômen.

"No entanto, além de ser baixo, esse risco é explicado aos candidatos à doação inter-vivos", diz Manfro, antes de completar: "Se a avaliação médica identificar algum fator de risco significativo, essa pessoa é descartada como doadora".

Já Luciane, da ProRim, lembra que, apesar de segura, a doação de um rim pode fazer diferença lá na frente, a medida que a população está envelhecendo cada vez mais tarde. "Por isso, há uma preocupação das equipes de transplante em aceitar um doador muito jovem, visto que, em tese, eles vão viver muito mais tempo e correm o risco de desenvolverem seus próprios problemas de rim lá na frente", avalia.

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