Comportamento

O culto evangélico das pastoras lésbicas que acolhem cristãos rejeitados

Amanda Perobelli/UOL
Rosania e Lanna durante o culto do último domingo (1) Imagem: Amanda Perobelli/UOL

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

04/10/2017 04h00

Na Avenida São João, no Centro de São Paulo, duas mulheres acolhem cristãos rejeitados por outras igrejas ou fiéis que não seriam bem-vindos na maioria das instituições religiosas. O templo Cidade de Refúgio, igreja evangélica pluralista, foi criado pelo casal Lanna Holder e Rosania Rocha, em 2011.

As pastoras eram evangélicas e trabalhavam para outras igrejas. Sublimavam a sexualidade, pois "não queriam ir para o inferno", destino dos homossexuais, segundo líderes dos cultos que ambas frequentavam.

Pastora passou pela cura gay

Lanna, responsável pela pregação da Bíblia nos cultos, foi casada com um homem e teve um filho, Samuel (hoje, com 16 anos). Passou pelo processo de "cura gay" e testemunhou sua falsa salvação por cerca de sete anos. "Isso foi antes de eu conhecer o Deus que me ama como eu sou", diz.

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"Se os porta-vozes das religiões projetam um Deus que julga e condena porque você é homossexual, o que resta é sentir aversão a ele. Eu tentei, fiz tudo o que os membros da igreja me pediram, casei, tive filho para, no final, entender que não há o que mudar. Não é uma questão de escolha, pois ninguém decide sofrer", afirma a pastora.

Responsável por toda a parte musical da igreja --e dona de uma voz grave e potente--, Rosania também foi casada com um homem e teve um filho, Caleb, 20. Os dois rapazes moram com elas atualmente.

Igreja para todos

Por mais estranho que pareça, há quem imagine que a igreja liderada por Lanna e Rosania é um "lugar de pegação". É comum, segundo elas, pois as pessoas associam homossexualidade a promiscuidade.

Amanda Perobelli/UOL
A pastora Lanna Holder durante o culto na Cidade de Refúgio Imagem: Amanda Perobelli/UOL

"Somos uma igreja como outra qualquer. A diferença é que ensinamos o amor, algo que falta aos ignorantes que não conhecem a palavra de Deus, e replicam o que ouvem por aí", fala Lanna.

O papel da Cidade de Refúgio é desconstruir discursos preconceituosos, que, segundo a pastora, são apenas uma interpretação da bíblia, usada por ela em todos os momentos de pregação.

"Nosso alvo é buscar vidas que se perderam na tristeza do julgamento. E, obviamente, temos muitos fiéis que foram convidados a se retirar de outras igrejas. Pessoas que queriam servir a Deus, mas foram excluídas pela sexualidade."

Com dez filiais pelo Brasil, a Cidade de Refúgio recebe, em média, 1.500 pessoas por semana na sede, na capital paulista. A maioria do público, assim como dos funcionários, é formada por homossexuais, bissexuais e trans. Mas há, sim, heteronormativos. Esses últimos, normalmente, familiares de membros da congregação. "Não vamos repetir o mesmo erro das outras igrejas. As portas estão abertas para todos."

O UOL foi até a Cidade de Refúgio no primeiro domingo de outubro e testemunhou, por cerca de duas horas e meia, um culto não muito diferente do que é visto em qualquer igreja: a pregação da Bíblia aos que creem em Cristo, e conversou com alguns fiéis: 

"Eu era um pecado ambulante. Aqui posso ser eu mesmo" 

Amanda Perobelli/UOL
Imagem: Amanda Perobelli/UOL

Lucas Basi, 27, conheceu a Cidade de Refúgio há nove meses. De família evangélica praticante, o psicólogo cresceu dentro de igrejas e com o discurso de que gays precisam ser curados. Mais novo de quatro filhos, dentro de casa nunca sofreu preconceito. Entretanto, a outra congregação que frequentava o enxergava como "um pecado ambulante". 

"O mesmo Deus está na Cidade de Refúgio e nas outras igrejas. A diferença é que aqui posso ser eu mesmo, com minhas roupas, cabelo, jeito de andar, falar... Antes, qualquer pequeno gesto, mesmo que comum, era relacionado à minha orientação sexual. Eu era podado, me impediam de desempenhar minhas atividades na igreja, como fazer parte do coral, só porque sou gay. Minha família permanece naquela igreja. Digo que fui a ovelhinha que pensa, quando saí de lá. Cansei de viver para os outros e não para mim. Aqui, conheci meu namorado, estou feliz e me sinto inteiro."

"Eu era coisa do demônio e não podia frequentar igrejas"

Amanda Perobelli/UOL
Imagem: Amanda Perobelli/UOL

A nordestina Gabrielly Aquilino, 43, nasceu Gilvan e, desde os 15 anos usa roupas consideradas femininas. Deixou a família, que sempre a apoiou, em Pernambuco, para ganhar a vida em São Paulo. Há quatro anos, depois de ser expulsa de várias outras igrejas, conheceu a Cidade de Refúgio e nunca mais deixou de frequentar. 

"Desde pequena eu sentia necessidade de ir para a igreja, mas não me aceitavam. Minha vida foi roubada, até eu conhecer a obra das pastoras. Aqueles pastores, que diziam que eu era coisa do demônio, roubaram a minha fé. Quando a gente não tem entendimento, acredita no que ouve e se fecha. A Cidade de Refúgio resgata vidas perdidas e foi isso que fez com a minha. Eu poderia estar morta se não estivesse aqui. Se a Bíblia diz, em Jeremias 1:5, que 'antes de tu se formares no ventre materno, eu já te conhecia', Deus sabia que eu ia crescer e usar saia, batom e salto alto. Quando eu entendi que ele me aceita como sou, tudo mudou". 

"Aprendemos a orar por aqueles que nos julgam"

Amanda Perobelli/UOL
Imagem: Amanda Perobelli/UOL

O casal Antero Lopes, 32, e Daniel Bino, 29, se conheceu na Cidade de Refúgio há três anos. A cerimônia de casamento, que aconteceu em abril, foi ministrada pela pastora Lanna. Para tentar "mudar", o coordenador de vendas Antero, de família católica, tentou ser padre e ficou dois anos no seminário. Já Daniel, que cresceu em uma igreja evangélica tradicional, acreditou, até os 26 anos, que iria para o inferno. 

"A carga de culpa imposta pela igreja, por pura falta de conhecimento e uma interpretação errada da palavra de Deus, fez eu me afastar. As pessoas comentavam com meu pai que eu era 'muito delicado' e tinha um 'jeito errado'. Mas quando você entende quem é, nada externo afeta mais. O processo é difícil e todo mundo precisa de um refúgio. Para nós, é essa igreja", diz Daniel. 

"Fiz tudo que pude para me 'libertar'. Ouvi falar da Cidade de Refúgio, mas não entendia, afinal, como é possível uma igreja para homossexuais? Só depois de muito estudo da própria religião eu consegui me aceitar e compreender a igreja. Hoje não espero que ninguém me aceite, só quero respeito. Pelos que me criticam e julgam, só posso orar e pedir que Deus os livre da ignorância", fala Antero. 

"O espiritismo me abraçou, mas não era minha essência"

Amanda Perobelli/UOL
Imagem: Amanda Perobelli/UOL

Paula Fernanda dos Santos tem 30 anos e é cabeleireira. Aos 16, assumiu a homossexualidade. Diante do preconceito, decidiu tentar namorar meninos, mas se sentia péssima. Paula conheceu a Cidade de Refúgio há três anos. Casada, até hoje algumas pessoas da família, evangélica tradicional, se referem a sua mulher como "uma amiga". 

"Como aprendi que seria destruída por conta da minha orientação sexual, saí da igreja frequentada pela família. Fui acolhida pelo espiritismo, onde todos os gays com os quais eu convivia também encontraram alento. O apoio que eu não tinha em casa, eles me deram. Também passei pelo candomblé e fui morar com a minha mãe de santo. Um dia ela disse que eu precisava de uma igreja. Depois de um tempo e de conhecer diversas correntes, percebi que aquilo não era a minha essência. Cheguei sem perspectiva de vida, deprimida, mas consegui me reerguer pelo amor que é pregado aqui."

 

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