Comportamento

Filha de Mano Brown expõe racismo: "Ninguém passa a mão no seu cabelo"

Amanda Serra

Do UOL, em São Paulo

01/12/2017 07h00

Nesta semana, o caso de racismo envolvendo Titi, de 4 anos, filha de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, ganhou os holofotes e trouxe à tona um fato rotineiro na vida de quem é negro.

“No Brasil, a cor do meu filho faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros”, afirmou Taís Araújo durante uma palestra da TEDxSaoPaulo. O vídeo viralizou nas redes e seu nome foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter. Mas enquanto a agressão denunciada pelo casal branco chocou famosos e anônimos e provocou uma onda de indignação, a fala da atriz negra foi apontada como "vitimismo" e "mimimi" nas redes sociais.

A atriz Domenica Dias, filha do rapper Mano Brown e da empresária e advogada Eliane Dias (também coordenadora do SOS Racismo, grupo dentro da Assembleia Legislativa de São Paulo), lamenta que as pessoas só estejam prestando atenção no tema agora. “Infelizmente, teve que acontecer isso com filha de um casal branco para as pessoas perceberem o que as crianças negras sofrem todos os dias. E não é só pela pela internet, começa na escola. O afeto dos professores é diferente, ninguém passa a mão no seu cabelo, como costuma ocorrer com as outras crianças, os elogios não são frequentes. É violento, triste”, relata. 

“Por que uma mulher negra não pode falar da dor que sente ao ver o filho sofrer por causa de sua cor? Por que quando um casal branco com um filho negro relata a mesma situação a dor é válida? Óbvio que não deveria ocorrer com ninguém, mas por que a sociedade trata com dois pesos?”, questiona a jovem, que frequentemente usa as redes sociais para ressaltar a beleza negra e a importância da autoaceitação. Com 18 mil seguidores no Instagram, ela se tornou uma representante para crianças e adolescentes. "Recebo muitas mensagens, mas ainda não consigo  enxergar essa minha importância, mas fico feliz. Queria eu ter tido uma Domenica na minha vida."

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De acordo com a pesquisadora, escritora, arquiteta e ativista feminina da negritude Joice Berth, o racismo estrutural instaurado no Brasil condicionou a sociedade a acreditar que os lugares estão pré-estabelecidos e o protagonismo está destinado aos brancos, ou seja, uma pessoa negra não pode reclamar quando é atacado ou não está sendo usado como mão de obra.

“Ver um negro fora do lugar de subalternos gera incômodo. Como as pessoas brancas não costumam refletir sobre isso, elas não percebem o quanto ficam incomodadas de ter uma pessoa negra no mesmo patamar que elas. Quando vemos uma garota como a Titi, adotada, ganhando atenção, afeto, causa incômodo. Essa construção de lugares, em que o negro precisa estar em desvantagem e o branco em vantagem, foi o que ocasionou essa revolta racista dos últimos dias”, analisa Joice.

Negritude: o que é ser negro?

Reprodução/Instagram/domenicadiassp
Domenica (à dir.) posa ao lado de Mano Brown, da mãe Eliane Dias (à esq.), da tia Juci D Blacl e do irmão, Jorge Dias, o Kaire Imagem: Reprodução/Instagram/domenicadiassp

Ser filha de quem é não livrou Domenica das ofensas e muito menos a isentou de sentir repulsa por seu cabelo crespo. “Sou negra e isso sempre foi um fato. Mas entender as consequências como um todo foi um processo de conhecimento. 

Meu pai me incentivava a ter um ‘black power’, falava que era bonito, mas eu não conseguia aceitar. Aos 10 anos, questionei minha mãe por que era negra e não branca. E isso foi motivado por causa do meu cabelo, não gostava dele, ele nunca 'dava jeito', queria ter os fios lisos. Afinal, na mídia, ninguém tinha o cabelo como o meu, na escola sempre ouvi ofensas disfarçadas de piadinhas. Os professores não se posicionavam. Passei boa parte da infância com ele cheio de tranças. Ir para praia era um terror.

Minha mãe queria me proteger do preconceito, da tristeza e permitiu que aos 11 anos fizesse meu primeiro relaxamento. Isso durou até os 16, quando comecei a trançar. Foram anos difíceis, porque meu cabelo não crescia, estava sempre fraco, gastava dinheiro, o processo era dolorido, queimava, deixava feridas. Logo depois, iniciei a transição capilar e assumi meus fios de fato. Mas foi um processo dolorido, um choque entrar em contato com o meu cabelo. Só após quatro meses passei a gostar dele.”

Divulgação/Instagram/domenicadiasp
Domenica Dias exibe seu black em ensaio fotográfico Imagem: Divulgação/Instagram/domenicadiasp
O que te choca faz parte da nossa realidade

"Recentemente (não foi a primeira vez), entrei em uma loja e assim que uma senhora branca me viu, ela correu, pegou a bolsa que estava aberta no balcão e a manteve junto ao corpo. Na hora, não consegui processar o que tinha acontecido  e me mantive longe, esperando o vendedor me atender. Foi aí que ela percebeu que eu também era consumidora. Mas não interessa, as pessoas não escolhem com quem vão praticar o racismo. A questão não é você ter dinheiro, estar bem vestido, de banho tomado e cabelo arrumado. A questão é que você irá passar por esse tipo de situação se for negro. Não temos poder de escolha. Por isso todos precisam estar abertos a ouvirem os nossos desabafos. Isso não é invenção das nossas cabeças. Outra violência, inclusive, é insinuar que essas atitudes não existem e são invenções.

Acho que o racismo nunca vai acabar, mas é preciso denunciar, fazer com que o agressor sinta vergonha. Ainda que o pensamento não mude, faz com o racista sinta medo de externalizar seu ódio, seja por receio de ser preso ou pelo constrangimento. O combate evita que nós, negros, soframos. Então, não lutar não é uma opção. É preciso lutarmos e estudarmos para garantirmos nossa existência, porque sem isso nem ela seria possível. É uma resistência."

Quando sua capacidade intelectual é questionada 
Reprodução/Instagram/belsantosmayer
"O racismo é 'cotidiário' e pode ser pequeno para quem fala, mas não para quem ouve", afirma Bel Santos Mayer Imagem: Reprodução/Instagram/belsantosmayer

Coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário Queiroz Filho (IBEAC) e do Literasampa, Bel Santos Mayer garante que dar visibilidade para questões como essas faz com que cada um reflita e observe onde guarda o seu próprio preconceito. “Quando você é uma mulher e negra tudo é diferente. A expectativa é outra. Por conta da minha voz, muitas vezes saio de uma palestra e ouço: 'por que você não vai cantar?' E a pergunta que fica é, por que tenho que cantar? Dançar? É muito triste você ver as pessoas transmitindo esses estereótipos e depois dizendo que é 'mimimi’ quando confrontamos.”

Aos 30 anos, o produtor de TV Willian Rafael é constantemente confrontado quando se apresenta como responsável pela área que cuida.“’Moço, preciso entregar um trabalho. Cadê o chefe?’ É como se eu não pudesse estar ali, afinal, pessoas negras não costumam ter papéis de destaque.”

Arquivo Pessoal
Willian Rafael também já foi chamado de "macaco", assim como Titi Imagem: Arquivo Pessoal
Liberdade limitada

Todo negro já foi vítima de racismo. Acho muito difícil você encontrar um que não tenha uma história para contar. Já passei por várias situações, desde de as ‘mais comuns’ como ser seguido em lojas, maltratado nos lugares ou na rua quando alguém te vê e atravessa, até a ofensa mesmo, que foi a que mais me marcou. Estava saindo de um shopping em São Paulo e uma pessoa começou a gritar: ‘macaco’, ‘macaco’. Olhei para trás e ouvi: ‘é você mesmo’. Fiquei desolado e pensei, por que isso está acontecendo comigo? 

Somos criados para saber lidar com isso, mas na hora, você fica surpreso e desacredita. Logo depois, o choro toma conta. E posso garantir que não é vitimismo. O preconceito é cruel.

Lidar com isso não é fácil, por isso é preciso saber o seu valor, onde você quer chegar, ir, onde você pode e o que irá conquistar. O mais importante é sempre lembrar que não podemos nos rebaixar à insignificância e ao ódio dos racistas. Quando acontece algo do tipo, recorro às minhas memórias, de quando era menino e lembro do que minha mãe dizia: ‘Filho, o racismo existe e ele é como um vírus e precisamos exterminá-lo. Não será fácil, mas creia, faça o seu melhor, essa será a resposta."

A pena pelo crime de injúria por preconceito varia de um a três anos de reclusão, além de outros fatos que podem agravar a pena.

Reprodução/Instagram/joiceberth
Imagem: Reprodução/Instagram/joiceberth

 

Já aconteceu de pessoas estarem no mesmo ambiente que eu e não olharem na minha cara, ou falarem comigo como se fosse obrigada a fazer algo. Já fui demitida por defender uma mulher negra de uma favela, vítima de abuso sexual e racismo. O engenheiro não aceitou quando me posicionei, conta a ativista Joice Berth, 41 anos

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